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A morte de Vargas pelas lentes de César Nunes

Publicado: Quarta, 21 de Outubro de 2020, 19h10 | Última atualização em Terça, 27 de Outubro de 2020, 21h49 | Acessos: 151

 

                                                                         

 

         “Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

(Getúlio Vargas, 1954)

Uma das mais célebres frases da história do Brasil republicano foi escrita pelo então presidente Getúlio Vargas em sua carta-testamento, encontrada na manhã de 24 de agosto de 1954 na mesa de cabeceira de seu quarto no palácio do Catete. Vargas suicidara-se com um tiro no peito, suas últimas palavras, escritas horas antes e endereçadas ao povo brasileiro, foram transmitidas pela Rádio Nacional no mesmo dia, lidas por telefone pelo então ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha.

A notícia da morte de Vargas causou enorme comoção social. Mobilizados pela notícia, populares ocuparam as ruas do Rio de Janeiro e outras capitais do Brasil. Milhares de pessoas acompanharam o velório do presidente no Palácio do Catete que atravessou a madrugada do dia 24 para o dia 25 de agosto. Alguns manifestantes encaminharam-se à Tribuna da Imprensa, jornal de Carlos Lacerda, grande opositor do governo varguista, e depredaram seu prédio; incendiaram carros e exemplares de outros veículos de comunicação contrários ao presidente, além de atacaram as sedes dos partidos de oposição. Na manhã do dia 25, uma multidão acompanhou o caixão de Getúlio até o aeroporto Santos Dumont, de onde o corpo seria transladado para São Borja (RS), sua cidade natal.

O noticiário, realizado pela Produções Cinematográficas César Nunes LTDA, exibe a concentração de carros e pessoas em frente ao palácio do Catete após o anúncio da morte do presidente; o cortejo fúnebre, que se seguiu ao velório e tomou as ruas da cidade; além do sepultamento, que contou com a presença dos ministros da Fazenda, da Justiça e Negócios Interiores, Tancredo Neves e do ex-ministro do Trabalho, João Goulart. As imagens em movimento dão a dimensão do que representou o suicídio de Vargas e toda mobilização social que se seguiu. As circunstâncias dramáticas de sua morte mudaram os rumos da conturbada crise política nacional, ganhando contornos de ato heroico e sacrifício pessoal em prol do país.

Getúlio, em sua carta, não deixaria dúvidas sobre os responsáveis por tal desfecho: forças internacionais, que aliadas a grupos nacionais contrários às reformas trabalhistas e ao projeto desenvolvimentista do governo, travavam uma ferrenha campanha de oposição ao presidente e, consequentemente, ao país.  Análises divergentes e diferentes hipóteses surgiram à época acerca das motivações de Vargas, e infundiram versões ao longo da história: um possível assassinato; a pressão da oposição, liderada por Carlos Lacerda, sobretudo após o atentado da rua Toneleiros, que tirou a vida do major Rubem Vaz, levando as Forças Armadas a exigir a renúncia do presidente e a tese, alicerçada na carta de Vargas, de que somente sua morte salvaria o país das garras do capital estrangeiro.

Não nos aprofundaremos em análises conjecturais sobre o que teria levado ao suicídio, certo é que a reação pública a sua morte está associada à imagem de líder construída ao longo dos 24 anos em que Getúlio Vargas esteve no poder. Uma imagem estruturada a partir da incorporação das massas ao seu projeto político e a associação direta do seu nome aos pobres e aos trabalhadores, como um guia indispensável para o povo, um referencial de pai, norteando a nação rumo à felicidade, daí o título de “Pai dos pobres”.

Segundo a historiadora Ângela de Castro Gomes, Getúlio Vargas é um exemplo de mito político, um modelo de presidente desenhado a partir da Revolução de 1930, quando assumiu o governo provisório, e consolidada durante o Estado Novo (1937-1945). O regime autoritário soube trabalhar lado a lado a intensa propaganda e repressão. Ao mesmo tempo em que esforços de divulgação da figura do presidente vinculada à criação e implementação de novos diretos sociais da população brasileira eram empreendidos, a censura impedia que qualquer oposição ao governo abalasse a imagem de Getúlio Vargas como leme da pátria. Elisabeth Cancelli diria ainda que:

                                                 “Ao mesmo tempo em que o Estado se tornava mais duro, ameaçador, complexo e que exteriorizava seu totalitarismo e penetrava mais e mais no mundo privado de cada um, fazendo com que se perdesse a noção de indivíduo para só permanecer a do coletivo, mais e mais a massificação fazia com que contingentes maiores da população se identificassem com o líder (...).”

Para a professora, o suicídio de Vargas era a negação da morte desse líder, que nos últimos anos de seu governo democrático teve a imagem bastante desgastada por toda crise política instalada. Para manter viva sua imagem, era necessário um ato heroico, a renúncia ou seu afastamento não eram caminhos possíveis, por isso, só morto sairia do Catete. A dramaticidade presente na carta-testamento, suas últimas palavras ao povo brasileiro, para quem ele deu a vida, daria o tom de sacrifício pessoal perpetrado para solucionar a crise que assolava o país. Sua morte teve importante papel na produção do “mito Vargas”, pois foi responsável por “ressuscitar os vínculos que Getúlio vinha perdendo com a massa” (CANCELLI, 1994). Daí toda comoção e reação popular, a multidão apaixonada e desesperada que saiu às ruas, como mostram as imagens produzidas por César Nunes.

 

Legenda do filme:

[Noticiário sobre o falecimento do presidente: concentração de carros e populares em frente ao palácio do Catete, após o anúncio do suicídio; manchetes de jornais sobre o falecimento; cortejo fúnebre em direção ao aeroporto; em São Borja, RS, sepultamento do presidente. Presenças do ministro da fazenda Osvaldo Aranha, do ministro da Justiça e Negócios Interiores, Tancredo Neves e de João Goulart]. [1954]. Fundo César Nunes. BR RJANRIO NK.0.DCT.7

 

Leia mais:

Ângela de Castro Gomes. PROPAGANDA POLÍTICA, CONSTRUÇÃO DO TEMPO E MITO VARGAS: CALENDÁRIO DE 1940. ANPUH – XXII Simpósio Nacional De História. João Pessoa, 2003.

Ângela de Castro Gomes (Org.). VARGAS E A CRISE DOS ANOS 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

Elizabeth Cancelli. VARGAS, A PAIXÃO DE UM SUICÍDIO: O IRRACIONAL E A MAGIA DO ATO. Revista de Pós-graduação em História da UnB. Brasília, 1994.

Luiz Carlos Bresser-Pereira. GETÚLIO VARGAS: O ESTADISTA, A NAÇÃO E A DEMOCRACIA. Textos para Discussão da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. São Paulo, junho de 2009.

 

 

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