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Religiões de matriz africana: visão pejorativa, preconceito e desinformação

Publicado: Segunda, 11 de Novembro de 2019, 12h20 | Última atualização em Quinta, 21 de Novembro de 2019, 19h20 | Acessos: 178
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Perseguidas como veículos para o curandeirismo ou o charlatanismo (práticas criminosas previstas no código penal de 1891), as religiões de matriz africana passaram por um longo processo de aceitação na sociedade brasileira, aceitação esta sempre desafiada pela intolerância religiosa e pelo racismo, aberto ou velado. Além da árdua tarefa de “desenquadrar” estas religiões na esfera jurídica, no cotidiano a luta se mostraria tão ou mais difícil: o preconceito e a desinformação foram responsáveis pela caracterização da umbanda e candomblé como manifestações folclóricas ou de puro entretenimento. Até os anos 1940, as notícias relacionadas a essas religiões eram em sua maioria, relatos de prisões de praticantes.

Mesmo quando as religiões foram legalmente aceitas e seus seguidores deixaram de ser arbitrariamente presos, as visões preconceituosas permaneceram. Quando não eram representadas em associação a rituais, magias e práticas malignas que exigiam sacrifícios, baseados em relatos descontextualizados de leigos, as religiões de matriz africana ganhavam as cores exóticas, pitorescas e folclóricas de culturas distantes e menos “evoluídas” – comparando-se evidentemente, com civilizações brancas e cristãs.

A abordagem da imprensa em relação a elas seguia este mesmo caminho. Vale dizer que esta atitude era comum no Brasil mas também em outros países, na América do Norte, na Europa. Em 1951, uma extensa reportagem da revista francesa Paris Match publicava um texto extremamente sensacionalista para apresentar fotos inéditas de um “ritual sangrento” jamais testemunhado pelo público europeu. Nesse sentido, a imprensa ilustrada que dominou o mercado durante o século XX (as páginas coloridas das revistas e jornais que vendiam muita imagem e pouca explicação) recorria de forma frequente a reportagens com fotografias chamativas e chocantes, e texto pouco esclarecedor. Para ampliar seu público, vender um número cada vez maior de revistas e amealhar cada vez mais anunciantes, pouco importava abordar uma religião legítima com milhões de seguidores de forma superficial e tendenciosa. A revista brasileira O Cruzeiro inspirou-se nessa reportagem e faz sua própria, nesse mesmo ano de 1951, associando o candomblé a práticas típicas de analfabetos e povos atrasados. Sem o aval de estudos científicos para corroborar esta afirmação, a revista defende seus preconceitos na certeza de que grande parte do seu público, que se identifica com a etnia branca e com a cultura europeia, partilha das suas ideias.

Embora as religiões de matriz africana ainda sejam muitas vezes vistas e tratadas pela grande imprensa como uma manifestação de religiosidade um tanto exótica, a crescente adesão aberta de personalidades, celebridades e formadores de opinião a umbanda e candomblé contribuiu para que estas perdessem em parte sua fama de prática bárbara ou inculta, e passasse a ser vista como uma religião original e expressão do povo brasileiro. A foto acima foi publicada no jornal carioca Correio da Manhã, em janeiro de 1971. Matéria muito menos sensacionalista, incluía fotos que ainda assim evocavam o exótico, o misterioso, o primitivo.

BR RJANRIO PH.0.FOT.5596. Rio de Janeiro, 16/01/1971.

DA SILVA ALMEIDA, Ivete Batista. AS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA NA MIRA DA IMPRENSA ILUSTRADA. Revista Relicário, v. 5, n. 10, p. 4-15, 2018.

TACCA,  Fernando  de. Imagens  do  Sagrado.  Campinas,  SP:  Unicamp,  Imprensa  Oficial  do Estado de São Paulo, 2009.

 

Atualmente os jornais impressos vêm perdendo leitores dia a dia para suas versões digitais ou para outros canais de mídia. No entanto, durante um longo tempo os jornais eram não apenas um meio de noticiar eventos, mas de pautar debates e defender posicionamentos em relação a diversos assuntos públicos. Esse tipo de publicação (o jornal periódico, informativo) começou a circular mais de um século depois da invenção da imprensa por Guttenberg em 1447, e teve seu auge nos séculos XIX e XX.

No Brasil, os jornais surgiram apenas após a chegada da família real ao Brasil em 1808, que trouxe consigo uma tipografia, suspendendo a proibição de circulação de jornais na antiga colônia. Ao contrário dos veículos que circulariam décadas depois, ao logo do século XIX manter a imparcialidade e uma suposta objetividade jornalística não eram prioridade, e inúmeros jornais defendiam com virulência e parcialidade seus pontos de vista. Aos poucos, o posicionamento “objetivo” ou “imparcial” (muitas vezes denotando aceitação em relação a política predominante) tomaram o lugar dos ataques verborrágicos, por um lado, e das defesas incondicionais dos governos, por outro. Alguns jornais ou revistas assumiam um tom assumidamente crítico, mas tentavam manter uma aparência de neutralidade, alegando que apenas buscavam a verdade e a defesa dos interesses do povo...

As páginas dos jornais sempre expressaram interesses, posicionamentos, preconceitos, opiniões, independente do tom, mais objetivo ou mais agressivo. Se a profissionalização dos jornalistas e uma legislação que de certa forma protege os indivíduos de calúnias diminuiram a quantidade de relatos fantasiosos e difamações, nem de longe as notícias e matérias publicadas deixam de seguir uma agenda própria da empresa jornalística, de expressar seus valores ou as concepções de mundo do jornalista.

A foto abaixo foi publicada em um jornal em janeiro de 1971. Você saberia dizer sobre o que versa a matéria que ela ilustra?

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