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Os dois Viannas

Publicado: Quinta, 11 de Fevereiro de 2021, 12h00 | Última atualização em Quinta, 18 de Fevereiro de 2021, 17h53 | Acessos: 73

Os dois Viannas        

Oduvaldo Vianna, o pai

            Oduvaldo Viana (1892-1972) se notabilizou como comediógrafo, mas em sua carreira explorou igualmente outras searas, com a do cinema e do rádio, tendo atuado ainda como tradutor, encenador, ator e empresário. Da mesma forma que outros artistas, Oduvaldo precisou conjugar seu trabalho criativo no teatro a atividades profissionais no serviço público e na imprensa de forma a equilibrar o orçamento. A multiplicidade de frentes de trabalho não impediu que sua produção artística alcançasse grande qualidade e reconhecimento de público, sendo hoje objeto de estudos que refletem sobre suas inegáveis contribuições.

Concebeu “peças para o chamado ‘teatro ligeiro’ (burletas, operetas, vaudevilles e revistas)” (FUNARTE, 2006), obtendo grande sucesso, mas essa produção, assim como a de seus contemporâneos nas décadas de 1920 e 1930, foi por bastante tempo pouco valorizada pela crítica especializada. Esta assinalava o surgimento do teatro brasileiro moderno somente na década de 1940, utilizando como marco a montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, além de criar uma falsa oposição entre as comédias e as assim chamadas peças sérias (MADEIRA, 2003 p. 9-14).

            Durante sua trajetória, Oduvaldo Vianna empenhou-se em campanhas como a da regulamentação dos direitos autorais e a do uso da prosódia brasileira nos textos teatrais com a substituição do “tu”, de origem portuguesa, pelo “você”, brasileiro. Sua militância artística o levou a vitalizar o teatro nacional no período em que este aparentava entrar em decadência em virtude do sucesso experimentado pelo cinema. Tendo sempre o foco na captação de público, traduziu e montou peças estrangeiras, realizou encenações de um só ato e transpôs para os palcos a essência do que era produzido em Hollywood e na Broadway (FUNARTE, 2006).

            Sua primeira experiência no cinema concretizou-se em 1936, com Bonequinha de Seda, filme de grande aceitação popular para o qual escreveu o roteiro e realizou produção e direção. No final dos anos 1930, iniciou uma nova empreitada – o radioteatro, para onde direcionou seu talento, escrevendo mais de duzentas radionovelas (MADEIRA, 2003 p. 16).

            Na revista denominada Viva a República!, de 1919, Oduvaldo Vianna faz galhofa com a política. Usa o nome da peça como bordão ao longo de toda a encenação e emprega os recursos da paródia e da farsa para apresentar seu enredo (MADEIRA, 2003). Segundo Madeira,

O revisteiro conseguiu passar sua mensagem nacionalista, de críticas à submissão do brasileiro ao estrangeiro, exaltando os valores pátrios. Viva a República não perde a virulência em muitos outros momentos, ao atacar, com o bom humor típico do teatro de revista, o atraso, a fome, o analfabetismo, a corrupção da justiça, da mídia, da política, etc. (2003, p. 143, grifo do autor).

            O documento aqui apresentado constitui um exemplar manuscrito do texto da peça submetido à censura praticada pela polícia, em observância a diplomas legais instituídos ainda no final do século XIX e que previam, além da avaliação dos textos teatrais, a presença de fiscais da polícia em ensaios e apresentações.

            Do casamento de Oduvaldo Vianna com Deocélia Vianna, também autora de programas para o rádio e coautora de várias obras de Oduvaldo, nasceu Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha. Os três partilhavam a paixão pela dramaturgia e as convicções políticas. Deocélia militava em movimentos feministas, Oduvaldo Vianna elegeu-se suplente de deputado estadual pelo Partido Comunista Brasileiro e Vianninha integrou a União da Juventude Comunista, ao mesmo tempo em que se dedicavam as suas produções artísticas.

 

Vianninha, o filho

            Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), a exemplo de seu pai, percorreu uma trajetória que se desdobrou em várias frentes: foi ator, dramaturgo, roteirista de cinema e redator de programas para a televisão. Em toda a sua produção artística é possível identificar os traços das suas preocupações políticas, especialmente o entendimento da arte como instrumento de luta e intervenção (PATRIOTA, 2004, p. 4).

Sua participação no Teatro de Arena, fundado em 1953 em São Paulo/SP, foi exitosa e propiciou o encontro artístico com nomes como Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, Milton Gonçalves e Flávio Migliaccio, entre outros. Destacam-se, nessa experiência, sua atuação como ator em Eles Não Usam Black-Tie e a escrita de Chapetuba Futebol Clube, peça teatral vencedora de vários prêmios.

A inquietação de Vianninha levou-o a desligar-se do Teatro de Arena e abraçar a iniciativa do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), no Rio de Janeiro, no início dos anos 1960. O projeto, ancorado em ideias revolucionárias, levava o teatro para a rua com apresentações em praças e comunidades objetivando a conscientização da população. Foi violentamente interrompido pelo golpe militar de 1964, obrigando Vianninha e outros artistas, como Ferreira Gullar e João das Neves, a formar um grupo de resistência, o Opinião, cujos trabalhos agora traziam novas temáticas que giravam em torno da oposição à ditadura. Alguns dos textos teatrais de sua autoria foram censurados e tiveram encenação proibida, dificultando sobremaneira o seu trabalho. No início da década de 1970, Vianninha iniciou uma nova etapa da sua trajetória, agora na televisão. O programa A Grande Família, de sua autoria, estreou em 1973 com grande sucesso de público, tornando-se um marco da televisão brasileira. Aos críticos, que o acusavam de ter se rendido ao “sistema”, devolvia reflexões sobre a importância de difundir valores em meio de comunicação de tão relevante alcance. Sua morte prematura o privou de ver algumas de suas peças encenadas e ao público, de uma inesgotável fonte de convites à manifestação política.

 

Imagens:

Oduvaldo Vianna e seu filho Vianninha. Sl. 1964. Correio da Manhã. BR_RJANRIO_PH_0_FOT_47394_009

Viva a República!, peça teatral de autoria de Oduvaldo Vianna submetida à 2ª. Delegacia Auxiliar de Polícia  do Distrito Federal. [Rio de Janeiro], 25 de julho de 1919. Fundo Delegacia Auxiliar da Polícia do Rio de Janeiro, 2. BR RJANRIO 6E.CPR.PTE.61

ATIVIDADES SUBVERSIVAS NO PLANO ESTUDANTIL/ FESTIVAL MUNDIAL DE ESTUDANTES/ PEÇAS TEATRAIS SUBVERSIVAS. Dossiê de 1968. Serviço Nacional de Informações. BR DFANBSB V8.MIC, GNC.CCC.68003853.

Referências

FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES – FUNARTE (Brasil). Oduvaldo Vianna: um inovador no teatro, no rádio e no cinema brasileiros. In: Portal Brasil Memória das Artes. 2006. Disponível em: http://portais.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/acervo/familia-vianna/oduvaldo-vianna-um-inovador-no-teatro-no-radio-e-no-cinema-brasileiros/. Acesso em: 08 fev. 2021.

MADEIRA, Wagner Martins. Formas do teatro de comédia: a obra de Oduvaldo Vianna. 2003. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.

PATRIOTA, Rosangela. História, teatro, política: Vianinha, 30 anos depois. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, v. 1, n.1, p. 1-18, 2004. Disponível em: https://www.revistafenix.pro.br/revistafenix/issue/view/1. Acesso em: 08 fev. 2021.

 

 

 

 

 

A partir da imagem aqui apresentada é possível realizar um percurso, conduzido pela trajetória profissional de um pai e seu filho, que entrelaça arte e política durante setenta anos do século XX. O pai iniciou-se no jornalismo e na poesia ainda na adolescência e teve uma profícua carreira como dramaturgo, atuando também como roteirista, produtor e diretor de cinema e como autor e diretor de radioteatro. Nas primeiras décadas do século XX, colaborou de forma ativa e revolucionária para promover a efervescência cultural que tomou conta do teatro, cinema e  rádio no Brasil. Membro do Partido Comunista Brasileiro, sua atuação política lhe renderia perseguições: em 1947, quando o PCB foi colocado na ilegalidade e novamente em 1964 quando o artista foi classificado como subversivo e teve seus direitos políticos cassados. O filho inicia sua trajetória no teatro como ator, tornando-se figura de destaque no Teatro de Arena. Na década de 1960, já atuando como dramaturgo e tendo recebido os primeiros de muitos prêmios, abraça a ideia de uma arte popular revolucionária e torna-se um dos fundadores do Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes (UNE) e do Grupo Opinião. Algumas de suas peças teatrais foram censuradas durante o período da ditadura militar brasileira e sua carreira foi abreviada pela morte precoce, mas o brilhantismo dos seus trabalhos para o teatro e TV são lembrados até hoje.

A fotografia, integrante do fundo Correio da Manhã, apresenta um encontro entre pai e filho em 1964. Você sabe o nome dos dois dramaturgos? Conhece alguma das peças teatrais que escreveram? Assistiu a algum episódio do famoso seriado de TV escrito pelo filho?

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