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Fiocruz: pesquisa e saúde pública

Publicado: Quinta, 25 de Março de 2021, 12h37 | Última atualização em Quinta, 25 de Março de 2021, 12h43 | Acessos: 124

 

No dia 15 de março de 2021 a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) entregou o primeiro lote de vacinas contra o coronavírus causador da devastadora pandemia de COVID – 19 que atualmente assola o mundo. Instituição pública centenária, a Fiocruz tem por missão “produzir, disseminar e compartilhar conhecimentos e tecnologias voltados para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e que contribuam para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população brasileira, para a redução das desigualdades sociais e para a dinâmica nacional de inovação, tendo a defesa do direito à saúde e da cidadania ampla como valores centrais.” A instituição produz vacinas, medicamentos, antídotos e desenvolve diversos programas preventivos de saúde pública junto a população de vários locais espalhados pelo território nacional, além de intensa pesquisa na área biomédica. Com sede no Rio de Janeiro e vinculada ao Ministério da Saúde, a Fiocruz possui uma reputação internacional sólida, e não a toa foi escolhida pela Organização Mundial de Saúde como uma das duas instituições de referência nas Américas para a COVID-19 em abril de 2020 (a outra instituição dos 3 continentes é o CDC, Centro de Controle e Prevenção de Doenças norte-americano). Atualmente, a Fiocruz possui 20 unidades técnico-científicas espalhadas pelo Brasil (especialmente Rio de Janeiro) e 1 em Moçambique.

Em 1900 o Instituto Soroterápico Federal começou a funcionar em uma fazenda na zona norte do Rio de Janeiro, inicialmente com a atribuição de produzir vacinas para a peste bubônica. Poucos anos depois, desempenhou um papel central no processo de erradicação de diversas doenças que grassavam na então Capital Federal, como a febre amarela e a peste, sob a direção do médico sanitarista Oswaldo Cruz, que ocupou o cargo a partir de 1902 e até 1916, quando se afastou por motivos de saúde. Ele morreria no ano seguinte, de insuficiência renal.

Em 1907 passa a ser denominado Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos, e em 1908, Instituto Oswaldo Cruz. A partir do sucesso no combate ao cólera, peste, febre amarela e varíola na Capital Federal, o Instituto passa a atrair a atenção mundial e também pesquisadores estrangeiros, como Stanislas von Prowazek, Gustav Giemsa e Max Hartmann. O médico brasileiro de formação suíça Adolpho Lutz foi um dos grandes nomes deste período, tendo trabalhado na instituição por 3 décadas, pesquisando, entre outros tópicos, febre tifóide, malária, esquistossomose, difteria, leishmaniose, hanseníase – doenças emblemáticas no que diz respeito a abordagem da Fiocruz, dedicada especialmente as doenças das regiões tropicais em geral e do Brasil, especificamente. Nos primeiros anos do Instituto, Carlos Chagas também se destacou com seu pioneiro trabalho acerca da tripanosomíase americana, doença atualmente conhecida como Mal de Chagas causada por um protozoário.

Nas décadas subsequentes ampliou suas atividades, organizando expedições científicas para vários pontos do território nacional, ampliando pesquisas e instaurando um programa acadêmico que já produziu milhares de teses de doutorado e dissertações de mestrado (marca de 3.300 trabalhos defendidos alcançada em 2007). Recebeu a visita de diversos cientistas de renome (Albert Eisntein e Alexander Fleming, como exemplo) e construiu ao longo dos anos e de parcerias com outros centros de  pesquisa a reputação que hoje a caracteriza.

Em 1970, no auge da ditadura militar, a perseguição política aos funcionários públicos que defendiam quaisquer pontos de vista não aprovados pelo governo ocasionou a cassação por dez anos dos direitos políticos de dez renomados cientistas, vinculados ao Instituto Oswaldo Cruz há mais de 30 anos. Estes cientistas também foram aposentados de forma compulsória e proibidos de trabalhar em qualquer instituição que recebesse alguma verba do governo federal. O episódio ficou conhecido como “Massacre de Manguinhos”. Estes cientistas foram reintegrados somente 16 anos depois e o episódio constitui um nefasto exemplo de como a ingerência política de autoridades sem competência científica pode prejudicar programas fundamentais para a saúde pública que dependem fundamentalmente da autonomia e da capacidade dos seus pesquisadores.

A erradicação da poliomielite, relativamente recente, foi uma das grandes conquistas das políticas de saúde pública no Brasil. O processo durou vários anos, e a conquista foi fruto principalmente de amplas campanhas anuais de vacinação, nas quais o papel da Fiocruz _ através dos institutos que a compõem _ foi central. Desde o apoio laboratorial do Centro Nacional de Enteroviroses, do Departamento de Virologia, à produção e fornecimento da VOP (vacina oral contra a pólio) pelo BioManguinhos a atuação da instituição mostrou-se fundamental para conter e finalmente erradicar um vírus mortal e incapacitante.

O Instituto Soroterápico Federal, antecessor do Instituto Fiocruz, foi instalado em uma fazenda isolada em uma área de aspecto rural, na zona norte do Rio de Janeiro em 1900. De lá para cá o entorno alterou-se de forma drástica, e hoje em dia uma das avenidas mais movimentadas do país dá acesso ao Instituto, também cercado por favelas e galpões.

O chamado Núcleo Arquitetônico Histórico de Manguinhos (NAHM) é composto por edificações erguidas nas primeiras décadas do século 20: Pavilhão do Relógio ou da Peste, primeiro a ser erguido, em 1904; a Cavalariça, também de 1904; o Quinino ou Pavilhão Figueiredo Vasconcellos; o Pombal ou Biotério para Pequenos Animais; o Hospital Evandro Chagas; a Casa de Chá, e o Pavilhão Mourisco (Castelo de Manguinhos, de 1918) que foi tombado pelo IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico Nacional) em 1981. Projetados entre 1903 e 1919, todos os prédios são de autoria do arquiteto português Luiz Moraes Junior.

Além do núcleo histórico erguido no início do século XX, o Complexo de Manguinhos apresenta um conjunto modernista construído nos anos 1940: o Pavilhão Arthur Neiva, ou Pavilhão de Cursos, com mural de azulejos desenhado por Burle Marx; o Pavilhão do Restaurante Central, ou Pavilhão Carlos Augusto da Silva; o Pavilhão de Patologia (atual Carlos Chagas) e o Pavilhão da Biologia.

O Arquivo Nacional possui uma série de fotos do fundo Agência Nacional que mostram a trajetória do Instituto Oswaldo Cruz, de campanhas de saúde pública em comunidades a assinaturas de acordos com instituições estrangeiras, passando por posses de diretorias, exposições, eventos e atividade científica. O fundo que leva o nome da instituição contém fichas funcionais da Fundação Oswaldo Cruz submetidas à Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Saúde na década de 1970. Tais fichas contêm dados pessoais, profissionais e também relativos a atuação política, evidenciando o interesse dos governos da ditadura militar na orientação política de cada um. Há inúmeras referências ao Instituto e à Fundação no acervo do Arquivo Nacional em documentação de variados fundos relacionados, em geral, à saúde pública.

EH.0.FOT.PRP.06785. Fachada do Palácio Mourisco em Manguinhos. Fotografia integra dossiê da visita do presidente  em 1958. Agência Nacional.

BR_RJANRIO.EH.0.FOT.EVE, 14870 _ Exposição fotográfica ilustra 80 anos de atividades (1900 a 1980) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) no Aeroporto Internacional do Galeão, Rio de Janeiro, RJ. 1980. Agência Nacional.

BR RJANRIO EH.0.FOT, EVE.15609 – A despeito da absoluta ausência de mulheres na reunião retratada, trata-se da implantação de atendimento ginecológico para moradores da favela da Maré na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Rio de Janeiro, RJ. Negativo de 1982. Agência Nacional.

BR DFANBSB AT2.0.0.8 Informes e fichas funcionais da Fundação Oswaldo Cruz submetidas à Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Saúde, 1973. Fundação Oswaldo Cruz.

 Recomendação de leitura

 Benchimol, J. L., & Teixeira, L. A. (1993). Cobras, lagartos & outros bichos: uma história comparada dos institutos Oswaldo Cruz e Butantan. In Cobras, lagartos & outros bichos: uma história comparada dos Institutos Oswaldo Cruz e Butantan (pp. 228-228).

 

Schatzmayr, Hermann G., Filippis, Ana Maria Bispo de, Friedrich, Fabian, & Leal, Maria da Luz Fernandes. (2002). Erradicação da poliomielite no Brasil: a contribuição da Fundação Oswaldo Cruz. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, 9(1), 11-24. https://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702002000100002

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