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Gripe mortal

Publicado: Quinta, 27 de Mai de 2021, 17h11 | Última atualização em Quinta, 27 de Mai de 2021, 17h15 | Acessos: 767

Em 15 de agosto de 1918 o navio da marinha mercante britânica Demerara zarpou de Liverpool com destino a Buenos Aires transportando passageiros, mercadoria e correspondência. Passou por Lisboa e aportou em Recife dia 9 de setembro, sua primeira escala brasileira, que previa outras 3 cidades: Salvador, Rio de Janeiro e Santos.

A Primeira Grande Guerra encontrava-se em seus últimos momentos, mas ainda dificultava a circulação de navios pelo Atlântico. O Demerara trazia notícias do front em sua carga de correspondência, e antes de chegar a América do Sul quase veio a pique por causa de um ataque de submarinos alemães. No entanto, um desastre de proporções semelhantes a própria guerra aproximava-se do mundo, e chegava ao Brasil trazido pelo vapor: a segunda onda da pandemia de gripe, chamada (erroneamente) de gripe espanhola.

Embora até hoje exista alguma controvérsia acerca de onde a epidemia começou, a maioria dos pesquisadores acredita que a primeira onda da pandemia teve início em março de 1918, em um campo de recrutas do exército nos Estados Unidos. Dali espalhou-se pela Europa, seguindo o movimento das tropas. Até agosto, a letalidade da doença era relativamente branda, mas em agosto, espalhou-se a partir da França uma nova tipologia, muito mais letal, levada para todo o planeta pelos soldados que voltavam para casa depois do fim do conflito.

A segunda onda da pandemia de gripe (ou influenza) varreu o mundo em seis meses, matando entre 25 e 40 milhões de pessoas, sendo que quase a metade na Índia. Na época não havia tecnologia para isolamento do vírus causador da doença (posteriormente denominado H1N1), mas estudos experimentais foram desenvolvidos em vários institutos de pesquisa pelo mundo, inclusive no Instituto Oswaldo Cruz. As conclusões em comum acerca deste vírus que ataca o sistema respiratório incluíam o alto nível de contágio da doença, especialmente através da inalação de gotículas de saliva ou via superfícies atingidas por estas. A maior parte das vítimas da pandemia de influenza era de crianças, idosos e pessoas com sistema imunológico comprometido.

Por onde passou o Demerara deixou o vírus. No Rio de Janeiro, após primeiros casos serem registrados em Niterói (na Vila Militar e em casas de cômodos), espalhou-se pela cidade e chegou a paralisar alguns serviços. Em Niterói a situação tornou-se tão perigosa que a capital do Estado foi transferida para Petrópolis (na época a cidade do Rio de Janeiro era o Distrito Federal, a capital do país, e Niterói era a capital do Estado do Rio de Janeiro). Metade da população da Capital Federal adoeceu, criou-se um serviço de remoção de corpos por caminhões, houve falta de alimentos (o governo tentou minimizar a situação distribuindo sopa e pão, mas as ações não foram suficientes para suprir as dificuldades de uma população empobrecida e doente). Dois meses depois da chegada do Demerara, mais de 15 mil pessoas haviam morrido na cidade. Em outubro o vírus chegou em São Paulo. A escassez de leitos e de pessoal na área de assistência médica, juntamente com falta de pessoal nos cemitérios e serviços funerários transformou a cidade em um caos. Cinco mil pessoas morreram em poucas semanas.

Se antes da chegada do vírus ao Brasil a doença era encarada com ceticismo e até bom humor, que minimizavam o perigo que ela representava, a situação mudou pouco tempo depois da chegada do Demerara. O governo federal demorou a se mobilizar, mas o fez em grande estilo. Nomes como Carlos Chagas, Theóphilo Torres e Carlos Seidl lideraram a luta contra a doença em diferentes momentos, enfrentando as vozes que reclamavam da “ditadura da ciência” que buscava conter a disseminação da doença através de medidas como a limitação de circulação de pessoas e aglomerações. A devastação veloz causada pela doença até hoje não encontrou par, e obrigou a determinação de algumas medidas profiláticas impopulares, criticadas pela imprensa e por parte da população.

Rodrigues Alves, que havia sido eleito no ano anterior para a Presidência da República, sucumbe a uma doença respiratória em janeiro de 1919. Embora seja comum a afirmação de que tenha morrido de gripe, a informação pode não ser exata, já que ele havia padecido por alguns meses antes de morrer, o que contraria o prognóstico de morte rápida ou recuperação total da gripe.

Em 1957-58 uma nova pandemia matou entre 1 e 2 milhões de pessoas. Causada por outro vírus da gripe, o H2N2, esta pandemia se originou na Ásia, fato que se repetiu 10 anos depois, na terceira pandemia de gripe do século XX ,causada pelo subtipo H3N2. O Brasil não escapou da pandemia de 1957, que chegou aqui no inverno de 1957, via Rio Grande do Sul, e espalhou-se por várias cidades. O então Presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira, que era médico, declarou em discurso de agosto de 1957: “Como atos preliminares, decidi convocar os meus auxiliares diretos e, em reunião de ministros e assessores técnicos, em que cada um traga a contribuição dos serviços especializados, encetar o que chamarei de mobilização “médico-sanitária” para a defesa das populações, nesta conjuntura, que, não devendo causar maiores alarmes à coletividade, todavia exige dos poderes públicos, e, à frente destes, do chefe do Estado, a vigilância, o cuidado e a atenção de todos os momentos, pois na verdade não há minuto a perder, quando se trata da saúde, das condições de trabalho e do bem-estar do povo brasileiro. Quero antes de tudo dirigir à nobre classe médica, a que me acho vinculado pela profissão e pelo espírito, um apelo patriótico e insistente, para que, prontificando-se a ajudar ao governo e às populações na emergência a que aludi, desde já se considere mobilizada para o esforço humanitário que será chamada a realizar, onde quer que ele seja reclamado.” O país também foi atingido pela pandemia de 1968 (gripe Hong Kong), mas nenhum dos casos chegou perto da devastação de 1918.

Desde a segunda pandemia, os cuidados necessários para evitar a contaminação pelo vírus vêm sendo disseminados através de campanhas de saúde pública: evitar aglomerações e lugares fechados, evitar contato físico, não partilhar objetos de uso pessoal. Em casos de alta incidência da doença, recomenda-se o uso de máscara. Tais atitudes previnem, aliás, infecções do trato respiratório em geral causadas por agentes externos, e não apenas a gripe.

Atualmente diversas variantes do grupo da gripe/ influenza já foram classificadas mas vacinas estão disponíveis em todo o mundo: em 1957 já havia uma vacina disponível contra o H2N2. Novas e mortais pandemias de gripe podem ocorrer, caso surjam novas cepas e subtipos do vírus. Segundo Ribeiro, “pandemia de influenza é um evento não esperado, que ocorre quando um novo subtipo viral emerge e se dissemina rapidamente por todos os continentes. As altas taxas de ataques são causadas pela importante susceptibilidade da população a este subtipo viral . As pandemias resultam de três fatores: a emergência de um novo subtipo de vírus influenza, alta proporção da população suscetível e alta transmissibilidade de pessoa a pessoa.”

A Organização Mundial da Saúde define pandemia como uma disseminação geograficamente ampla de determinada doença através de uma contaminação sustentada, caracterizando-se por alto poder de contágio e aumento consistente na velocidade de proliferação.

 Documentos:

Relação de passageiros do vapor Demerara. Setembro de 1918. BR RJANRIO BS.0.RPV, ENT.14310. Serviço de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras - SP (Santos) [CLIQUE NA IMAGEM PARA ACESSAR O DOCUMENTO]

Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1960) no Palácio do Catete: participa de reunião ministerial sobre vacina contra a gripe asiática, Rio de Janeiro, RJ. BR RJANRIO EH.0.FOT. PRP.6103. 12/08/1957. Agência Nacional.

Leitura recomendada:

Teixeira, L. A. (1993). Medo e morte: sobre a epidemia de gripe espanhola de 1918. In Medo e morte: sobre a epidemia de gripe espanhola de 1918 (pp. 32-32).

Ribeiro, A. F. (2007). Influenza: trajetória no século XX. BEPA. Boletim Epidemiológico Paulista (Online), 4(41), 13-20.

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