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Temas principais

O rádio no Brasil

Publicado: Quinta, 02 de Julho de 2020, 16h58 | Última atualização em Quarta, 08 de Julho de 2020, 13h22 | Acessos: 915
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Rádio no Brasil: cultura, diversão e política

Viviane Gouvêa

Mestre em Ciência Política

Pesquisadora do Arquivo Nacional

Cerca de metade dos brasileiros não sabia ler em 1950. Esse fato tornava difícil a difusão de notícias através de jornais e revistas, dificuldade acentuada pela extensão continental do país. Não é surpresa, assim, que o rádio, introduzido aqui nos anos 1920, tivesse um papel fundamental para que a nação soubesse o que ocorria de um lado a outro do Brasil, recebendo informações acerca das mudanças ocorridas na política e na economia. Para além de transmissor de notícias, o rádio também se apresentava como um veículo que difundia a cultura das várias partes do Brasil e do mundo, levando novos e velhos estilos musicais, radionovelas, eventos esportivos aos lares em boa parte do território nacional.

Um grupo de amadores pernambucanos liderados por Augusto Pereira criou a primeira rádio brasileira ainda em 1919: a Rádio Clube de Pernambuco. Três anos depois, durante as celebrações pelo centenário da independência, o presidente Epitácio Pessoa fez um pronunciamento a partir do Teatro Municipal, na Cinelândia (centro da então Capital Federal) que foi transmitido ao público presente na Esplanada do Castelo, na inauguração da grande exposição do evento. Em 1923, Roquette Pinto e Henrique Morize inauguram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que posteriormente viria se tornar a rádio Roquette Pinto 

Nos anos 1920 não havia permissão para rádios comerciais, o que limitou seu crescimento e acabou por tornar o veículo um tanto elitista, já que somente sociedades e organizações afluentes poderiam bancar um empreendimento radiofônico. Mas o decreto 21.111, de 1932 aprova o regulamento para a execução dos serviços de radiocomunicação no território nacional, definindo o rádio como um "serviço de interesse nacional e de finalidade educativa", autorizando a publicidade radiofônica permitida no limite de até 10% da programação transmitida pelas emissoras. Este decreto também versava sobre a formação da mão de obra no setor, que a partir de então absorveria um sem-número de novos profissionais nas áreas técnicas, de administração, propaganda, além, é claro, de muitos artistas. A partir daí, cresceu a profissionalização do meio (desde a formação da mão de obra até o pagamento de cachê aos artistas) e sua paulatina associação com a nascente indústria fonográfica.

Os primeiros fonógrafos chegaram no Brasil no final do século XIX, e os gramofones, poucos anos depois. A Casa Edson, do imigrante Figner, loja de discos e primeira gravadora instalada no país em 1900, dominou a indústria de discos no início do século XX no Brasil, lançando novidades e artistas desconhecidos antes mesmo do advento do rádio. Em 1912 fundou a fábrica Odeon, que chegou a prensar um milhão de discos por ano, além de milhares de gravações musicais. Nos anos 1930, quando do início da ascensão do rádio no Brasil, gravadoras norte-americanas e europeias já haviam se instalado no país: a Odeon original (de quem Figner havia emprestado o nome), a Victor, a Columbia, entre outras. Naquela altura, vários artistas brasileiros já tinham sido gravados e estavam sendo vendidos nas lojas, difundindo país afora ritmos regionais como o choro, o xote, o baião. Logo essas gravações ganhariam as ondas do rádio e penetrariam os lares de brasileiros das mais variadas classes sociais.

Uma vez que as emissoras comercializavam propaganda de variados produtos e assim poderiam capitalizar o empreendimento, logo estabeleceu-se acirrada concorrência pelo público. Além de música e notícias, eventos esportivos, radioteatro e radionovelas, programas sobre saúde e política disputavam a audiência. Ao longo das décadas seguintes, a programação se diversificou e as rádios tornaram-se uma referência cultural fundamental, não apenas por lançar artistas e difundir clássicos da literatura em suas radionovelas , mas também por alavancar e incentivar a utilização de novos produtos e estilos de vida. As propagandas e, principalmente, as revistas voltadas para os artistas do rádio traziam para o público novos padrões de consumo e comportamento. Muito, aliás, à semelhança do que ocorreria com a televisão a partir dos anos 1960.

Apenas na década de 1930, quase 60 novas emissoras foram inauguradas o que, juntamente com a queda no preço dos aparelhos de rádio, contribuiu para popularizar o veículo. Grandes nomes da nossa música, e também da dramaturgia, foram lançados na era de ouro do rádio – dos anos 1930 a década de 1950. Alguns saíam do teatro (inclusive do chamado teatro de revista) para o sucesso no rádio; outros percorriam o caminho inverso. Nomes como  Pixinguinha, Sinhô, Bide, João da Baiana – enfim, os primeiros sambistas, alguns oriundos de bairros pobres, conseguiram uma projeção que jamais seria possível sem um meio de comunicação de massa como o rádio. O exemplo dos sambistas do Rio de Janeiro foi seguido Brasil afora, e o país passou a partilhar um repertório cultural comum e a consumir o que era produzido em diversas partes do território.

Reis e Rainhas do Rádio , o Rei da Voz, a Pequena Notável são apenas algumas das alcunhas que passaram para a história. Foi também durante este período que o cinema se popularizou, e com ele, aumentou a influência da indústria cultural norte-americana. Como não poderia deixar de ser, o rádio também abriu suas portas para o mundo e trouxe músicas e costumes de terras muito distantes  para os  lares brasileiros.

Para além da música, a informação em tempo real foi um dos aspectos mais marcantes da ascensão do rádio. Não podemos deixar de perceber que a maior parte da Era de Ouro do Rádio deu-se sob os governos de Getúlio Vargas (1930-1945, e 1951-1954). Nas eleições de 1930 já havia ocorrido a utilização politica do rádio, mas foi nas décadas seguintes que sua importância se tornaria central. Vargas percebe desde cedo o potencial da radiodifusão, e atua no sentido de manter o setor sob a tutela do estado, o que se tornaria uma herança persistente na regulamentação do setor de comunicações no Brasil. Incentiva seu potencial como fator de integração nacional em um país gigante e povoado por um grande número de analfabetos, ao mesmo tempo em que o utiliza como propagador de uma cultura nacional condizente com o seu projeto político. Especialmente durante o Estado Novo (1937-1945) a censura e o controle das comunicações de uma forma geral se acentuaria, com a criação do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) em 1939 para regulamentar e vigiar a produção de notícias e a veiculação de entretenimento.

Uma das ações do governo de Vargas durante o Estado Novo foi a criação do programa diário A hora do Brasil (nascido em 1935 com o nome Programa Nacional, alterado 3 anos depois), obrigatoriamente transmitido por todas as emissoras no mesmo horário. As notícias veiculadas originavam-se dos órgãos oficiais, sendo portanto a versão mais enaltecedora possível das virtudes do estadista no poder.

Outro programa de notícias – desta vez, não oficial, embora submetido a censura como todos os outros - a fazer sucesso entrou no ar em agosto de 1941 e era transmitido simultaneamente por várias emissoras em cadeia: Rio de Janeiro (Rádio Nacional), São Paulo (Rádio Record e, depois, Tupi), Recife (Rádio Jornal do Commercio), Porto Alegre (Rádio Farroupilha) e Belo Horizonte (Rádio Inconfidência). Era o Repórter Esso – Testemunha Ocular da História, patrocinado pela norte-americana Standard Oil e seguia os manuais de jornalismo daquele país. Sua transmissão dos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial foi marcante, e o programa tornou-se tão popular que migrou para a televisão na década seguinte. Tanto A hora do Brasil como Repórter Esso foram fundamentais para manter o povo brasileiro a par dos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, inclusive a participação do Brasil no conflito.

Três emissoras destacaram-se na Era de Ouro do Rádio: Nacional, Mayrink Veiga e Tupi. Seus programas musicais, com marcante participação do auditório (a esmagadora maioria dos programas do rádio era ao vivo), os humoristas, as radionovelas, os grandes astros, os jingles, as campanhas, as transmissões esportivas, o noticiário – juntamente com emissoras espalhadas pelo Brasil, ajudaram a criar, através da cultura popular de massa que produziam e difundiam, uma nova identidade nacional.

Bibliografia aqui

Lista dos arquivos

BR_RJANRIO_PH_0_FOT_01287_d0009de0047. RJ, s.d. Correio da Manhã.

BR_RJANRIO_PH_0_FOT_01287_d0018de0047: Estúdio da radio Club Fluminense em 1931. Correio da Manhã.

BR RJANRIO W3.0.DSO, VIC.119 Gênero LA: lenda amazônica; LB: toada amazônica. autor: Valdemar Henrique; intérprete: Gastão Formenti com orquestra Victor brasileira. Humberto Moraes Franceschi

BR RJANRIO ML.0.APR, FOT.11 - fotografia de Mário Lago, Álvaro Aguiar e outros durante transmissão de radionovela nos estúdios da rádio Nacional. RJ, 1951

BR_RJANRIO_PH_0_FOT_15134_046: Pixinguinha e banda. S.l, [195-]. Correio da Manhã.

BR_RJANRIO_PH_0_FOT_12315_d0007de0029. Linda Batista. S.l, s.d. Correio da Manhã.

BR_RJANRIO_W3_10_1018_A. Humberto Moraes Franceschi

BR_RJANRIO_W3_10_0679_B. Humberto Moraes Franceschi

BR RJANRIO EH.0.FOT, PPU.3296 Lourival Fontes, diretor geral do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), conversa com Walt Disney. RJ, 1941. Agência Nacional.

BR RJANRIO EH.0.DSO, DIS.169. Noticiário do serviço especial da Hora do Brasil. Noticiário sobre a Segunda Guerra. 1944.

BR_RJANRIO_SG_CX30_001809_01. partitura pertencente a Rádio Nacional. Mayrink Veiga.

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