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Patriotismo?

Publicado: Quinta, 26 de Dezembro de 2019, 12h28 | Última atualização em Quinta, 12 de Março de 2020, 14h21 | Acessos: 264

 

“A paz se faz com quem ama o mesmo chão.”

Alheia a toda violência imposta pela polícia e pelas forças armadas nas ruas e prisões àqueles que se opunham ao regime militar iniciado com o golpe de 1964, as mensagens veiculadas pelos governos do período buscavam transmitir um clima de paz, unidade e felicidade. O patriotismo propagado pela ditadura excluía todos aqueles que não aceitavam as arbitrariedades do regime, com sua violência, ou com sua política desenvolvimentista dependente do capital internacional e altamente concentradora de renda. Brasil, ame-o ou deixe-o  foi um lema disseminado no início da década de 1970 que explicitava esse posicionamento – aqueles que não estivessem satisfeitos com o país da forma que ele estava, que fosse embora daqui. Defender possibilidades alternativas não era uma opção.

A utilização de propaganda intensa como mecanismo para justificar a ilegalidade do exercício do poder é um traço comum às ditaduras do século XX, do nazismo a ditadura de Vargas, passando por Stálin, Pinochet e muitos outros governos autoritários. Para além da violência, largamente ilegal, censura e legislação restritiva, a adesão (ou ao menos, indiferença) de uma parte significativa da população mostrou-se fundamental para viabilizar um regime autoritário em uma sociedade de massas. As máquinas de propaganda trabalhavam nesse sentido: inculcando na população em geral um sentido de ameaça premente, cujo combate deveria ser realizado através de medidas extremas que somente aqueles que detinham o poder poderiam executar adequadamente. Qualquer voz dissonante era imediatamente desqualificada e classificada como inimigo a ser obliterado. O patriotismo exacerbado mostrou-se peça chave para a mobilização das pessoas comuns na suposta defesa de uma nação “ameaçada”.

Embora a ditadura militar vigente entre 1964 e 1985 não fosse tão pródiga na propaganda de si ou na mobilização das massas (em especial se compararmos a máquina criada por Vargas nos anos 30 e 40, ou na poderosa propaganda nazista), na década de 1970 produziu material de propaganda institucional que buscava divulgar o “milagre econômico” brasileiro e as obras e melhorias que ele permitiu. Grande projetos como a Transamazônica, ponte Rio-Niterói, Itaipu, entre outros, surgiam como conquistas grandiosas do governo militar. Além da propaganda aberta das realizações dos governos, mensagens patrióticas tornaram-se comuns, buscando enfatizar os vários aspectos positivos do Brasil, destacando a importância da manutenção destes e deixando implícito que questionamentos e desafios a ordem vigentes ameaçavam a estabilidade e o progresso nacional, e eram vistos como propaganda enganosa visando macular a imagem do país. A manutenção dos valores considerados fundamentais para a nação dependia da aceitação do status quo: paz, amizade, família, trabalho, ordem, desenvolvimento.

O filme aqui apresentado integra a campanha de fim de ano do governo Ernesto Geisel, e incorpora de forma bastante explícita as noções acima colocadas: um ambiente bucólico, um país feliz, pessoas cordatas e solidárias umas com as outras, e a indefectível mensagem final: “a paz se faz com quem ama o mesmo chão.”

Filme: Mensagem musicada de propaganda institucional do governo Ernesto Geisel, 1976. Arquivo Nacional. Fundo Agência Nacional.

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Leitura recomendada

SCHNEIDER, Nina. Propaganda ditatorial e invasão do cotidiano: a ditadura militar em perspectiva comparada. Estudos Ibero-Americanos, v. 43, n. 2, p. 333-345, 2017.

TORGAL, Luís Reis; PAULO, Heloísa. Estados autoritários e totalitários e suas representações: propaganda, ideologia, historiografia e memória. Imprensa da Universidade de Coimbra/Coimbra University Press, 2008.

 

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