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Quem ousa sair de casa?

Publicado: Quinta, 17 de Janeiro de 2019, 17h27 | Última atualização em Quinta, 05 de Setembro de 2019, 15h03 | Acessos: 1428
J352 Revista da Semana
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Quem ousa sair de casa

A escritora e educadora Nísia Floresta lançou seu primeiro livro em 1832, ao 22 anos: “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. Em uma época em que as mulheres da elite brasileira pouco sabiam além das chamadas prendas domésticas, mal sabendo ler e escrever, Nísia rompeu uma série de tradições ao abandonar o marido ainda na adolescência, e viver com outro homem na juventude, tendo com ele três filhos. Fundou o Colégio Augusto, no Rio de Janeiro, e atuou ao longo da sua vida em defesa de uma educação ampla para todas as mulheres, enfatizando que o ensino voltado às “moças de boa família” acabava por transformá-las em mulheres fúteis e incapazes de contribuir com o desenvolvimento nacional.

Décadas depois do lançamento do seu primeiro livro, a luta por seus direitos ainda transformava as mulheres em alvo de comentários ácidos, agressões, chacotas. Não é de hoje que as mulheres que defendem seu espaço sofrem com ofensas físicas e morais.

Se Nísia Floresta combateu a ignorância generalizada entre as mulheres e seus poucos direitos, ela o fez em um período ainda anterior ao feminismo, movimento organizado visando a conquista da igualdade entre homens e mulheres, que começou a se articular nas últimas décadas do século XIX. Além da educação, outra questão básica deste movimento em seus primórdios foi a conquista do voto, interditado às mulheres em todas as chamadas democracias. Também no Brasil as sufragistas começaram a se organizar no início do século XX, e a fundação do pequeno Partido Republicano Feminino em 1910, por Leolinda Daltro e Gilka Machado representou um marco, se não de ganhos efeitivos, em termos de organização e disseminação das suas ideias. Entretanto, a mera ideia de uma mulher participando da política nacional ainda provocava horror, revolta e um riso nervoso em muitos homens (e não apenas em homens), que consideravam as mulheres dotadas de um cérebro inferior e uma sensibilidade exarcebada, impróprias para a vida pública de um modo geral, restringindo suas capacidades ao domínio do lar.

No início do século XX, algumas demandas específicas das mulheres operárias demonstram que a luta pela igualdade entre homens e mulheres extrapolava as escolas e as urnas: greves que estouraram no setor têxtil incluiam em suas reivindicações o fim da jornada noturana para as mulheres, por exemplo.

Os risos debochados diminuíram com o tempo: mulheres como Maria Lacerda de Moura, Leolinda Daltro, Carlota Pereira de Queirós, Alzira Soriano, Laudelina de Campos Melo e Bertha Lutz, entre muitas outras, enfrentaram o descrédito e iniciaram um movimento que atravessaria o século XX e marcaria de forma indelével a democracia, sobrevivendo a ditaduras e escárnios, e chegando ao século XXI enfrentando novas questões com novas estratégias.

A imagem abaixo, tirada da Revista da Semana (revista ilustrada publicada entre 1900 e 1959) ilustra a afronta que o feminismo representava para a família tradicional, e o ridículo a que ficavam expostas as mulheres que ousavam buscar algo mais que as realizações da vida doméstica.

Revista da Semana. Rio de Janeiro, 01 de dezembro de 1901. Arquivo Nacional.

 

Referências de leitura

GRINBERG, Keila – Código Civil e Cidadania, Jorge Zahar Editor, RJ, 2001 

PINTO, Celi Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil, Ed. Fundação Perseu Abramo, SP, 2003

 SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade, Ed. Expressão Popular, S.P, 2013

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