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Os soldados da borracha

Publicado: Terça, 14 de Dezembro de 2021, 12h36 | Última atualização em Terça, 11 de Janeiro de 2022, 10h49 | Acessos: 551

Entre 1943 e 1945 cerca de 60 mil pessoas foram recrutadas para trabalharem nos seringais da região amazônica, onde extrairiam borracha imprescindível para o esforço de guerra empreendido então pelos Estados Unidos e seus aliados, contra o avanço dos regimes fascistas. Era a Segunda Guerra Mundial, e o Brasil, alinhado com os Estados Unidos, fornecia insumos necessários para fabricação de pneus, botes, calçados, material isolante e outros itens derivados da borracha.

Os homens foram, de fato, recrutados para este trabalho, e acabaram se tornando conhecidos por soldados da borracha. Este alistamento compulsório foi realizado pelo S.E.M.T.A (Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia), sediado em Fortaleza, o que fazia sentido em função de o nordeste brasileiro ter sido a região escolhida para o alistamento: a seca devastadora mais uma vez ameaçava expulsar famílias inteiras dos campos e leva-las à recorrente peregrinação pelas vilas e cidades em busca de alimento e trabalho.

Intermediado pelo SEMTA, o engajamento na extração da borracha transformou milhares de brasileiros em semi-escravos, submetidos a contratos fraudulentos por “coronéis” dos seringais, sobrevivendo e trabalhando em condições extremas (uma floresta tropical infestada de doenças que lhes eram desconhecidas e contra as quais seus corpos já combalidos pela subnutrição não apresentavam quaisquer defesas).

Em geral as famílias dos soldados permaneceram na sua terra natal e acabaram desamparadas. A grande maioria do contingente total dos alistados jamais voltou para casa, vítima da insalubridade geral nos seringais, de animais, da violência das relações de trabalho ou presos aos contratos e às dívidas criadas pelos senhores das terras. O governo tampouco cumpriu o prometido: levar os soldados para casa como heróis de guerra e com tratamento igual aos combatentes, inclusive com aposentadoria. Calcula-se que apenas seis mil tenham conseguido voltar para casa _ por sua própria conta.

Em 2014, o Congresso Nacional aprovou a concessão de indenização no valor de vinte e cinco mil reais aos soldados da borracha ainda vivos, e modifica a base de cálculo do reajuste da pensão vitalícia para seus dependentes, de um e meio para dois salários mínimos mensais.

O SEMTA, criado em 1942, teve como diretor Paulo de Assis Ribeiro, e era financiado por um fundo especial da Rubber Development Corporation, criado no contexto dos Acordos de Washington, que nortearam a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Foi extinto no ano seguinte e a Comissão Administrativa de Encaminhament0 de Trabalhadores para a Amazônia (CAETA) assumiu suas funções.

O fundo Paulo de Assis Ribeiro, sob guarda do Arquivo Nacional, apresenta extensa e detalhada documentação sobre o SEMTA e suas atividades, e seus registros são fundamentais para a compreensão de todo o processo que levou milhares de pessoas á Amazônia para atuarem na chamada “guerra da borracha.” Fichas médicas (incluindo detalhadas descrições de tipos físicos), fichas de inscrição (em que o soldado deveria registrar todo tipo de informação como histórico familiar e de trabalho, por exemplo), regulamentos do SEMTA, cartilhas de orientação, mapas, registros de despesas com acessórios de trabalho, roupa e comida, correspondência, notas fiscais, listas com nome dos recrutados e seus respectivos empregadores, contratos, relatórios e históricos críticos.

Os documentos aqui exibidos pertencem ao referido fundo.

BR_RJANRIO_S7_0_MAP_0456_m0001de0002

BR_RJANRIO_S7_CX005_PT001_m0346de0377

BR_RJANRIO_S7_CX005_PT001_m0350de0377

 

Recomendações de leitura

Miranda, G. A. (2013). Doutores da Batalha da Borracha: os médicos do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA) e o recrutamento de trabalhadores para os seringais em tempo de guerra (1942-1943) (Doctoral dissertation, Casa de Oswaldo Cruz).

Pereira, G. L. (2014). “Soldados da borracha”–esquecidos ou não lembrados?. Margens, 8(11), 199-217.

 

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