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No final de 2018 o Arquivo Nacional recebeu o acervo de duas grandes personalidades do esporte brasileiro: as irmãs Sieglinde e Maria Lenk, nadadoras pioneiras de renome internacional. A família Lenk, em especial a mãe das duas irmãs, acumulou ao longo dos anos jornais, documentos produzidos ao longo da carreira das nadadoras, documentos e escritos pessoais, medalhas, fotografias, correspondência. A importância de Maria Lenk para o esporte brasileiro é tanta – e ela continuou competindo até sua morte, ocorrida em uma piscina em 2007, aos 92 anos – a Lei 14.418, de 2022 declarou Maria Lenk como a Patrona da Natação Brasileira. Ela é a única representante no Swimming Hall of Fame - salão da fama dedicado a nadadores -, na Flórida (EUA), e recebeu a Ordem Olímpica, do Comitê Olímpico Internacional (COI) concedida aos maiores atletas de todos os tempos.

Maria Lenk começou a nadar aos dez anos, em função de problemas de saúde que poderiam ser aliviados com a prática desse esporte. Nascida em São Paulo em 1915, acabou dando suas primeiras braçadas no rio Tietê, que atravessa a cidade – e na época, não era poluído. Na adolescência já havia alcançado nível internacional que permitiu sua ida às Olimpíadas de 1932, em Los Angeles, – primeira mulher sulamericana a participar das Olimpíadas.  Naquele ano os atletas brasileiros – Lenk inclusive – custearam a viagem, inclusive vendendo café que levavam no navio. Nas Olimpíadas seguintes, em Berlim (1936), ela introduziu o nado de borboleta na competição. Sua irmã caçula, Sieglinde, também nadadora, igualmente integrava a equipe brasileira.

 Maria bateu o recorde mundial dos 400m peito, com o tempo de 6’16,5” em outubro daquele mesmo ano, no Clube de regatas Guanabara. Poucos dias depois, em 8 de novembro, ela estabeleceu nova marca mundial para os 200m peito, com 2’56”, marca que superava o recorde masculino da prova, que era de 2’59”.

Maria Lenk foi a primeira atleta brasileira a estabelecer um recorde mundial. Se na sua primeira participação nos Jogos não chegara muito longe, em Berlim ela alcançou as semi-finais. Infelizmente, no ápice da sua carreira e rendimento nas piscinas a Segunda Grande Guerra (1939-1945) impediu a realização dos Jogos Olímpicos e outras competições internacionais. Mesmo assim, no início dos anos 1940 conseguiu quebrar 12 recordes nos Estados Unidos, onde se formou em educação física. Em 1942 integrou o grupo fundados da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, onde foi professora por mais de 40 anos. Afastada de competições oficiais ainda aos 30 anos, retornaria em competições sênior e master, onde por muitos anos quebrou recordes e padrões.

Como não poderia ser diferente em uma sociedade machista, patriarcal e muitas vezes misógina, a história das mulheres no esporte expressa a dificuldade que elas enfrentam em conquistar seus espaços e percorrer os caminhos da sua escolha – preconceitos, falta de autonomia jurídica e financeira, apoio público deficiente. Os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, ocorridos em Atenas em 1896 excluíram as mulheres da competição – exclusão que não se repetiu desde então. Como em outros campos, o que era normal para os homens surgia de uma incansável e árdua batalha para as mulheres. Mais de 120 anos depois, a exclusão se transformou em desigualdade, com contratos profissionais que recompensam os homens de forma muito mais generosa.

No Brasil, a participação feminina em competições internacionais teve início nos anos 1930/ 40, até certo ponto por pressão internacional, mas nas décadas de 1950/ 60 houve uma estagnação neste processo. Nos Jogos Olímpicos de Melbourne, em 1952 a delegação brasileira levou apenas 5 mulheres, 6 a menos do que em Londres, 1948. Pior: nas 3 edições seguintes, havia apenas uma mulher na delegação brasileira (Mary Dalva Proença, Wanda dos Santos, Aída dos Santos). Apenas em 1979 é definitivamente revogada o decreto-lei varguista de 1941 (n.   3199) que determinava: “Às mulheres não é permitida a prática de desportos incompatíveis com a sua natureza”. Mais uma vez, homens decidindo qual é a natureza da mulher, suas capacidades e os limites dos seus desejos.

A partir da década de 1980 a participação feminina em todos os esportes vem aumentando, o que se reflete no aumento da participação das mulheres em Jogos Olímpicos e conquistas de medalhas.

A situação de desigualdade permanece, vinculada a pouca presença feminina em postos de comando de entidades esportivas, menor visibilidade midiática (o que vem diminuindo na última década), patrocínio mais difícil – em um país marcado pela pouca importância do esporte em geral (com poucas exceções, como o futebol) mesmo os homens sofrem com falta de apoio e recursos.

Muitas esportistas marcaram esta difícil trajetória ao longo do século XX, e alguns nomes deixaram passaram para a história: Maria Esther Bueno (Tênis), Hortência e Paula (basquete), Jaqueline Silva e Sandra Pires (Vôlei de Praia), além daquelas já citadas na matéria.

As imagens desta matéria são reproduções documentos do fundo Irmãs Lenk (IRL) sob guarda do Arquivo Nacional.

BR_RJANRIO_IRL_0_DPE_0004_d0001de0001 – Passaportes de Maria Lenk entre 1948 e 2002

BR_RJANRIO_IRL_0_DPE_0001_d0001de0001 - Carteiras de identificação civil de Maria Lenk entre 1927 e 1978

Tridimensionais:

Ordem Olímpica concedida a Maria Lenk em 2000, pelo Comitê Olímpico Internacional a indivíduos com extensa contribuição ao esporte.

Placa de participação nas Olimpíadas de Berlim (1936)

EHRENBERG, Mônica Caldas. Mulheres e esporte no Brasil: muitos papéis, uma única luta. Olimpianos-Journal of Olympic Studies, v. 5, p. 6-19, 2021.

 

 https://www.cob.org.br/eventos/hall-da-fama/maria-emma-lenk-zigler

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