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Uma mulher jovem sorri de olhos fechados, a cabeça inclinada, entregue à própria alegria, a satisfação de si. Cercando esta personagem, destaque de um cartaz realizado em desenho, imagens de um homem, sorrindo discretamente; convulsão social aparente; um casal em um momento de paixão; uma letra M em branco contrastando com o restante das letras se sobressai ao formar o título do filme: PARAHYBA MULHER MACHO. A letra M em questão exibe uma óbvia semelhança com as pernas dobradas de uma mulher deitada, expondo suas partes íntimas.

O filme, da diretora Tizuca Yamasaki lançado em 1983, apresentou uma versão própria para alguns episódios da nossa história, cruciais para a deflagração do movimento de 1930, que derrubou o presidente Washington Luís e encerrou o período conhecido como Primeira República. A cadeia de acontecimentos teria tido início com a exposição do romance transgressor, para a época, do advogado João Dantas e a professora e poetisa Anaide Beiriz após o roubo de documentos pessoais do jornalista, inimigo político de João Pessoa, então governador da Paraíba e que havia perdido as eleições presidenciais como vice na chapa de Getúlio Vargas. O resultado das eleições vinha sendo ferrenhamente questionado pela chapa perdedora – da Aliança Liberal – que acusava a situação de fraude eleitoral para permanecer no poder.

Na verdade João Pessoa já vinha, ao longo de todo o mês de julho de 1930, atacando de forma violenta e muitas vezes pessoal seus inimigos políticos no jornal União, tradicional porta voz do governo paraibano. As diatribes locais ganharam amplitude nacional quando João Dantas assassinou João Pessoa em 26 de julho daquele ano em uma confeitaria do Recife, alçando a vítima à categoria de mártir e desencadeando uma reação avassaladora em vários pontos do Brasil, articulada pela oposição derrotada, e que levou à queda de Washington Luís.

Ao tomar a exposição do romance e da intimidade sexual do casal como crucial para o desenrolar da história, a cineasta retira João Pessoa do centro da narrativa dominante, buscando perceber como foi para uma jovem de boa família e posturas bastante avançadas (e questionadas) para a época estar no centro de uma comoção política que transformou sua vida pessoal em um caos.

Entretanto, para contar essa tragédia ocorrida nos anos 1930 através de um filme produzido nos anos 1980, Tizuca se valeu da transposição de temas e dilemas das mulheres da sua época. Sua Anayde era desafiadora, sexualizada, sedutora e nada disso a incomodava – nem o incômodo e o escândalo que tal personagem causaria na Paraíba de 1930. A obra inclusive interrompe a história da jovem antes do seu suicídio, em outubro daquele mesmo ano, de forma a não deturpar a imagem da personagem valente e indomável do filme.

Anaíde Beiriz foi, de fato, uma mulher fora do seu tempo. Uma das suas transgressões tristemente a levou ao seu fim e infelizmente determinou seu papel na história; como sempre, o papel comumente relegado à mulher – quando ela tem algum – nas grandes narrativas: o “apêndice” de um homem poderoso.

O filme de 1983 levantou polêmicas na época, e levanta até hoje, mas por razões diferentes, fruto de tempos diferentes. Ao ser lançado, desafiou concepções tradicionais sobre o lugar das mulheres, deu visibilidade à trajetória de uma delas, retirou João Pessoa do centro e do pedestal. Com o passar dos anos, algumas escolhas passaram a ser questionadas, inclusive o título do filme – como se uma mulher, para ser valente, tivesse que ser “macho” – e sua chamada – “a mulher que todo homem gostaria de ter”.

Uma coisa é certa: tanto o filme como a história que o inspirou levantam questões pertinentes sobre a forma como as mulheres e seu papel na história são percebidos, abrindo caminho para perspectivas diferentes das tradicionais, que costumavam se limitar ao desenrolar de eventos colocados em marcha por homens poderosos.

Cartaz:

BR_RJANRIO_HP_0_CAR_0025. Cartaz do filme Parayba Mulher Macho, 1983. Hildete Pereira de Melo

 

Clipping de jornais

BR_RJANRIO_Q0_ADM_EOR_CDI_RJR_0048_d0001de0001. Série de recortes com notícias, inclusive o assassinato de João Pessoa por João Dantas. Rio de Janeiro, agosto de 1930. Federação Brasileira para o Progresso Feminino.

 

Bilhete manuscrito

BR RJANRIO SA.0.COR, A930.72 - Carta (manuscrita) de [José Antônio Flores da Cunha], [senador], para o titular, informando de sua convicção quanto à revolta em face do assassinato de João Pessoa [Cavalcanti de Albuquerque] e a reação de Getúlio [Dornelles] Vargas [presidente do Rio Grande do Sul].

 

Leituras sugeridas

ABRANTES, Alômia. No corpo da “mulher-macho”: imagens de gênero, sexualidade e história. In: XIII ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA DA ANPUH SEÇÃO PARAÍBA. Simpósio Temático 07: História, Historiografia, Corporalidade e Afetos. 13., 2008. Anais [...]. Guarabira - PB, 2008. ISBN: 978-85-8964-67-6. Disponível em: https://dspace.sti.ufcg.edu.br/handle/riufcg/37948

KARAWEJCZYK, Mônica. E pra não dizer que não falei de... Anayde Beiriz e o (s) feminismo (s) no filme parahyba mulher macho (1983). Caderno Espaço Feminino – Uberlândia, MG - v. 30, n. 1 – Jan./Jun. 2017

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