O cerrado brasileiro, segundo maior bioma da América Latina, perdeu simplesmente 50% da sua área em apenas 40 anos. Já a Amazônia perdeu 14% de vegetação nativa entre 1985 e 2024; quase 80% do total desmatado acabou tomado por pastagens para a pecuária. No caso do cerrado, o principal pivô do desmatamento foi o agronegócio ligado à soja e o milho. A fronteira do agronegócio no Brasil continua se expandindo a pleno vapor, e a cada ano a biodiversidade (e a imensa riqueza que ela carrega), as populações nativas e a cobertura natural – fundamental para o equilíbrio ecológico, incluindo o climático – cedem espaço a monocultura intensiva em grandes propriedades voltada para o comércio exterior.

Ao longo do século XX percebe-se um movimento de expansão do território brasileiro – ou melhor, da efetivação da sua ocupação através da exploração de recursos naturais nativos (vegetais, energético ou minerais), implantação de projetos agropecuários e do incentivo de migração para estas áreas a fim de viabilizar a expansão. Este processo sofreu um incremento acentuado durante a ditadura militar (1964-1985) em função do projeto de desenvolvimento concentrador e conservador defendido pelo regime, consolidando um modelo econômico baseado no latifúndio e na produção em larga escala de commodities para exportação. O fim da ditadura, entretanto, não rompeu este modelo e não arrefeceu a expansão do agronegócio sobre a Amazônia e o Cerrado.
A atual crise climática relaciona-se intimamente com as atividades humanas em nosso planeta, principalmente nossa interação com o ambiente natural e a destruição deste. As queimadas de intensidade inédita que assolam as regiões do cerrado e da Amazônia legal são fruto da devastação destes biomas, bem como as secas que nos últimos anos vêm diminuindo as reservas de água dos nossos aquíferos e prejudicando o fornecimento à população. A situação é mais dramática no caso do cerrado, o bioma mais devastado e que concentra a maior parte das nascentes dos nossos grandes rios e de alguns dos principais aquíferos brasileiros (Guarani, Bambui e Urucuia).

O conceito de desenvolvimento sustentável busca uma saída para um falso dilema – que o “mundo natural” é uma entidade separada de nós e que precisa ser removida do caminho para o “progresso.” A ideologia predominante durante o século XX pregava a necessidade de “vencer” a floresta e em “enraizar o homem” – bem entendido, o homem “não-índio”, disposto a trabalhar a terra, garimpar ou derrubar árvores. Embora tenha se tornado quase óbvio demais que a destruição do ambiente em que ganhamos existência tem consequências devastadoras para os seres humanos, as atividades predatórias continuam a avançar sobre o cerrado, a Amazônia e outros biomas. O agronegócio é, de longe, o maior responsável pelo desmatamento ilegal, mas não é o único, já que o garimpo e o crescimento desordenado de áreas urbanas também contribuem para a destruição do meio ambiente.
A perversidade desse sistema de exploração do meio ambiente chega a refletir-se nas consequências nefastas para o próprio agronegócio, que depende da estabilidade do clima e da regularidade das chuvas para prosperar, condições profundamente minadas pelo modelo agressivo imposto por ele mesmo.
O site Que República é essa? já debateu o tema em algumas matérias; já trouxemos o Projeto Carajás, a exploração da borracha, a violência no campo (corolário de uma apropriação concentradora e muitas vezes irregular da terra), o desenvolvimentismo. No acervo do Arquivo Nacional, inúmeros fundos apresentam documentação que pode ajudar a compreender e ilustrar o processo aqui abordado: SNI, Agência Nacional, Asi-FUNAI, DSI-MJ, Companhia Vale do Rio Doce Sociedade Anônima, Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, entre outros.
As imagens aqui selecionadas (datadas das décadas de 1980 e 1990) pertencem ao fundo IBASE, e integram um conjunto de slides usados para estudos e apresentações sobre a devastação ambiental e o avanço da pecuária e agricultura na Amazônia.
https://infoamazonia.org/2023/03/21/desmatamento-na-amazonia-passado-presente-e-futuro/