
A bandeira do Brasil, com suas cores marcantes há muito caiu nas graças do povo e nas artimanhas políticas. Alguns dos seus usos – talvez pervertidos – propõem uma obliteração de campos políticos opostos que, de acordo com esta visão perversa do nacionalismo, não representam os interesses nacionais e, portanto, equivalem a inimigos do Estado. Esta operação transforma brasileiros em inimigos de sangue e o debate político em guerra mortal, em um processo que busca, sem exageros, sequestrar a identidade pátria e excluir da mesma todo aquele que não colaborar com a suposta unidade nacional, invariavelmente preconizada pelo espectro político à direita. Nos últimos anos, diante de novo assalto às cores nacionais, os grupos que se contrapõem a este espectro político vêm se recusando a permitir que este sequestro ocorra sem disputa.
Em tempos de competições esportivas internacionais – em especial a Copa do Mundo de Futebol – o uso das cores verde e amarelo se intensifica, se generaliza. Mas estas cores, assim como a bandeira que caracterizam, possuem origem e significados históricos.
Fruto de um golpe militar, a República estabelecida em 15 de novembro de 1889 carecia de apoio popular e articulação política institucional. A primeira proposta de bandeira republicana durou apenas alguns dias: com listras verde e amarelas, parecia demais com a flâmula dos Estados Unidos da América, o que gerou descontentamento generalizado, inclusive entre os militares. Em 19 de novembro – dia da bandeira até hoje – uma nova versão foi apresentada, com o design que conhecemos atualmente, pelo decreto número 4 da República.
Continuam as cores verde e amarelo, além do branco – herança das Casas Imperiais de d. Pedro I e presentes nas bandeiras imperiais – e mais o azul. Com o tempo, as cores passaram a representar as riquezas naturais do nosso país e o céu límpido.
A nova bandeira, desenvolvida por artistas e intelectuais fortemente ligados ao positivismo (doutrina muito em voga na época, especialmente entre os militares), apresentava um campo verde, um losango amarelo e uma esfera azul estrelada (representando os estados da federação) com uma faixa atravessada, dando a impressão de um desenho em 3D. Na faixa, um lema caro ao positivismo: ordem e progresso.
Miguel Lemos, diretor do Apostolado Positivista do Brasil, o astrônomo Manuel Pereira Reis, catedrático da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, e o pintor Décio Vilares desenvolveram o novo pavilhão que, longe de agradar a todos, sofreu críticas intensas em especial por seu lema. Acusavam os positivistas de terem transformado o símbolo nacional em um veículo barato de propaganda para uma “seita,” sem qualquer relação com as tradições nacionais.
A bandeira também demorou a cair no gosto popular. Indiferentes à filosofia positivista e à astronomia que organizava a esfera celeste (que refletia o dia 15 de novembro de 1889 nos céus do Rio de Janeiro, Capital Federal da época), o povo brasileiro de uma forma geral só passou a se afeiçoar à bandeira nacional a partir de 1922, quando do centenário da Independência. A partir daí, projetos nacionais que incluíam alfabetização sistemática e apoio a manifestações culturais – como o de Vargas nas décadas de 1930 e 1940 - passaram também a contribuir para a popularização do pavilhão verde, amarelo e azul.
Ao longo dos anos a esfera celeste ganhou novas estrelas, correspondendo aos novos estados da federação. Atualmente são 27, e mais Brasília, o Distrito Federal.
A lei 5700, de 1971, estabelece como os símbolos nacionais devem ser apresentados e como não podem ser utilizados. Se a lei for seguida ao pé da letra, nenhum produto poderia estampá-la. A imagem que ilustra esse texto pertence ao fundo SNI (V8), uma bandeira riscada com as denominações das 3 forças armadas, que à época impunham uma ditadura mortal aos brasileiros.
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