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 Antes de março de 1974, para sair do Rio de Janeiro e chegar até a vizinha Niterói – ou vice versa – era necessário contornar a baía da Guanabara por terra ao longo de 100 quilômetros ou embarcar com seu automóvel na linha marítima de conexão entre as duas cidades, separadas por cerca de 5 quilômetros de água. A ponte inaugurada naquele mês recebeu o nome oficial de ponte Presidente Costa e Silva passou a unir as duas cidades por uma via de concreto.

Iniciada no começo de 1969, a construção da ponte – prevista para ser inaugurada em 1971 – custou, no total, cerca de 400 milhões de dólares, (em valores da época) e um número incerto de vidas. A monumental ponte tornou-se um dos símbolos da impiedosa ditadura militar que então dirigia o país, cuja propaganda enfatizava incansavelmente as obras de engenharia e infraestrutura, apresentados ao público como fonte de orgulho nacional. A Rio-Niterói (como ficou conhecida) ultrapassa 13 quilômetros de extensão e seu vão central – 300 metros de comprimento – ainda é o maior do mundo em viga reta contínua.

Assim como várias outras obras e projetos de cunho desenvolvimentista, a construção da ponte foi marcada por desastres e polêmicas envolvendo impactos ambientais, orçamentos estourados (ou sob questionamento), exploração implacável de mão de obra. No caso, mortes e acidentes (muitas vezes negados pelo governo), juntamente com suspeitas de má qualidade de material utilizado no início da obra e orçamento estourado quase levaram à instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). Muitos dos desastres envolvendo a construção da ponte não podem ser avaliados em sua extensão total, pois o governo ditatorial manteve me obscuridade informações cruciais sobre o projeto.

Em março de 1970, durante um teste das fundações da obra, uma plataforma desabou, matando 5 operários e 3 engenheiros. O governo decidiu trocar o consórcio responsável pela maior parte da obra, estopim para que o partido de oposição (PMDB, único com licença para atuar além do partido do governo, ARENA) tentasse instalar uma CPI para investigar as causas que levaram o governo à troca de consórcio e as consequências financeiras para o Estado brasileiro. Além da questão orçamentária, também havia problemas na execução da obra e nos materiais empregados, problemas estes apontados por engenheiros de renome (inclusive alguns envolvidos no projeto). Muitos acusavam o governo de executar a obra a toque de caixa, apresentando prazos “políticos” irreais para a consecução de uma obra segura. Minoria da câmara, o PMDB viu a tentativa ser barrada.

O real custo humano para a finalização da ponte em prazo estreito (apesar de mais longo do que o inicialmente proposto) ainda é desconhecido. Calcula-se que cerca de 10 mil pessoas trabalhavam na ponte; no mínimo, 40 morreram.

Na inauguração, o general-presidente Emílio Garrastazu Médici e o ministro dos Transportes, Mario Andreazza, atravessaram a Rio–Niterói a bordo do Rolls-Royce da Presidência. Uma missa foi realizada em memória daqueles que pereceram durante a construção da ponte, mas suas famílias não foram convidadas. Consoante com um país de raízes, troco, caule e folhas excludentes, apenas 200 operários foram admitidos à festa – depois de passar um teste semelhante às provas escolares (matemática, português, história e geografia).

A ponte ainda leva – por mais absurdo que seja – o nome do ditador em cujo mandato sua construção teve início. Em meio a alteração de logradouros urbanos que homenageiam aqueles que defendem tortura e assassinato como política de Estado, cabe a pergunta: porquê ainda não foi alterado?

 

 

Arquivos:

Fotos

BR_RJANRIO PH.FOT.02350, 08 Construção da ponte, janeiro de 1973. Correio da Manhã.

BR_RJANRIO.EH.0.FOT.EVE.10640, 0018. Visita do ministro Mário Andreazza e deputados Federais as obras da Ponte Rio-Niterói, outubro de 1973. Agência Nacional.

BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02709_019 e BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02709_049: construção da ponte, novembro de 1969. Correio da Manhã.

Filmes:

BR RJANRIO EH.0.FIL, DCT.121 - documentário sobre a concepção e o início das obras da ponte Rio-Niterói. imagens: barcas fazem a travessia de caminhões e automóveis; em 1969, ministro dos transportes mario andreazza apresenta maquete da ponte à rainha elizabeth ii, da inglaterra, em visita desta ao brasil; no serviço geográfico do exército, técnicos avaliam imagens aerofotogramétricas; aspectos das obras de construção da ponte: plataformas, perfurações no fundo do mar, canteiros de obras; 1973. Agência Nacional

BR RJANRIO EH.0.FIL, FIT.2 - ponte Rio-Niterói – 1972. Agência Nacional.

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