
Brasil e Japão estabeleceram relações diplomáticas em 1895, com a assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação. Alguns anos depois, em 1908 o navio Kasatu Maru realiza a primeira viagem oficial de imigração do país asiático para o Brasil, embora um pequeno grupo independente tenha tentado se estabelecer no interior do estado do Rio de Janeiro no ano anterior. Em sua maioria de origem camponesa, as 165 famílias que vieram no navio abriram caminho para os milhares de japoneses que emigraram para cá: até 1940, cerca de quase 200 mil japoneses chegaram no Brasil. A maioria dirigiu-se para o interior de São Paulo, em especial para as plantações de café; mas vários grupos se dirigiram ao Sul do Brasil, ou à região amazônica, para trabalhar na extração de borracha e em plantações de pimenta.
A história dos japoneses no Brasil é, para dizer o mínimo, conturbada. Além das dificuldades inerentes a qualquer imigrante – acentuada pela discrepância de língua e costumes entre os dois países -, havia o tratamento abusivo, quando não criminoso, dispensado por parte dos fazendeiros aos imigrantes – de qualquer origem. Por não serem “europeus brancos,” os asiáticos também sofriam preconceito dirigido especificamente aos que na época eram chamados “amarelos.”

Até o início da Segunda Guerra Mundial os dois países mantiveram uma relação cordial, com algumas iniciativas de caráter comercial e cultural. O “Convênio de Intercâmbio Cultural entre o Brasil e o Japão” foi assinado em 1940, mas anulado pouco depois em função da eclosão da Grande Guerra no front do oceano Pacífico no ano seguinte. O Brasil cortou relações diplomáticas com o Japão, e a escalada dos sinistros acontecimentos nos anos seguintes levaram não apenas à interrupção da imigração entre os dois países, mas a uma crescente animosidade em relação aos japoneses aqui instalados, bem como uma repressão, por parte do governo, a atividades que pudessem expressar o nacionalismo dos mesmos. Japoneses chegaram a ser detidos, agredidos, seu idioma proibido de ser falado, jornais das colônias deixaram de circular.
Desde o início a vinda de indivíduos asiáticos enfrentou resistências de alguns setores, inclusive jornalistas, políticos, acadêmicos, que defendiam um “branqueamento” do povo brasileiro, para o qual os africanos, principalmente, mas também os asiáticos representavam forte obstáculo. A partir da década de 1930, estas resistências ganharam impulso com o antagonismo que se agravou entre várias nações do planeta e que culminou na Segunda Guerra Mundial, devastador conflito que acabou por colocar Brasil e Japão em lados opostos. Teorias conspiratórias, surgidas antes da eclosão da guerra, ganharam terreno e transformaram imigrantes japoneses em inimigos consumados.
Apesar do Tratado de Paz assinado em 1952 e da retomada das relações diplomáticas entre Brasil e Japão, imigrantes continuam a ser agredidos e mesmo mortos, inclusive por forças de segurança pública. No fundo Comissão Nacional da Verdade, podemos encontrar diversos casos narrados sobre agressões e assassinatos de imigrantes japoneses depois do fim da guerra.
A imigração é retomada, embora em menor escala; cerca de 2,3 mil jovens imigraram para o Brasil até 1967. Muitos imigrantes, tanto os já instalados como os que chegam no pós-guerra passaram a habitar nossas cidades, acompanhando o processo de industrialização e urbanização do Brasil. Na década de 1980, um forte movimento de retorno à pátria ancestral marcou toda uma geração de descendentes japoneses, motivado pela estagnação no Brasil e pelo crescimento japonês. Até hoje esse fluxo existe, embora em menor intensidade.

No ano do centenário da chegada do Kasatu Maru, em 2008, o Arquivo Nacional realizou a exposição virtual “Japão, centenário de um encontro”, de curadoria da pesquisadora da instituição Renata do Vale, de onde as imagens desta matéria foram retiradas.

As imagens são retiradas dos seguintes processos de naturalização, no fundo Série Interior – Nacionalidades [BR RJANRIO A9]
Naturalização. IJJ6 320. PNE 9569
Naturalização. IJJ6 181. PNE 5289
IJJ6 355. PNE 10753
Naturalização. IJJ6 252. PNE 7382
O dossiê da Comissão Nacional da Verdade Documentação sobre a repressão do Estado Novo contra os imigrantes japoneses e seus filhos nipo-brasileiros, cuja violência, impetrada por agentes públicos aos mesmos referentes, prossegui após a Segunda Guerra Mundial. Inclui a publicação "1946-1952: casos de tortura e morte de imigrantes japoneses no Brasil", elaborada por Mario Jun Okuhara e destinada à Comissão Nacional da Verdade tem por notação BR RJANRIO CNV.0.RCM.00092000808201338 e foi entregue à CNV em 2013.
Recomendações de leitura:
Carneiro, Maria Luiza Tucci (2018). Imigrantes indesejáveis. A ideologia do etiquetamento durante a Era Vargas. Revista USP, n. 119. https://jornal.usp.br/revistausp/revista-usp-119-textos-8-imigrantes-indesejaveis-a-ideologia-do-etiquetamento-durante-a-era-vargas/
https://exposicoesvirtuais.an.gov.br/index.php/galerias/10-exposicoes/11-japao-brasil.html