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A “edade de ouro” da Cultura Physica do Brasil: o início do halterofilismo no Rio de Janeiro

 

“Exercícios que eles chamavam ‘de moda’”

 

Antes de o futebol se estabelecer como o esporte dominante no país, existia, no Brasil, uma infinidade de práticas de atividade física, havendo inclusive, em determinados momentos, modalidades predominantes. Entre elas estavam o remo, o boxe, a luta greco-romana e a gymnástica, que conviveram e, muitas vezes, disputaram atenção e prestígio nos primeiros anos do futebol em território nacional. Entre essas práticas esportivas, destacava-se o halterofilismo.

Em seus primórdios, o esporte de levantamento de peso esteve fortemente associado à luta e aos praticantes da modalidade greco-romana. Essa relação intensificou-se com a chegada, ao Rio de Janeiro, na primeira década do século XX, de personalidades e campeões europeus, como o atleta francês Paul Pouns. Nesse período, ao lado das competições de luta, também ocorriam demonstrações e incipientes disputas de halterofilismo. Assim, treinamentos típicos do levantamento de peso — que posteriormente dariam origem à atual modalidade olímpica — passaram a ser empregados por jovens brasileiros, como as técnicas de “arraché”, “jeté” e “developpé”.

É importante ressaltar que, naquele contexto, não havia uma separação clara entre as práticas de halterofilismo conhecidas atualmente, isto é, entre o levantamento de peso, baseado em carga e força, e o fisiculturismo, voltado para a construção estética e proporcional da musculatura. Em outras palavras, os jovens que praticavam halterofilismo naquele momento utilizavam-no, sobretudo, para demonstrar simultaneamente força física e pujança muscular.

Nesse contexto, foi fundamental a atuação de personalidades ligadas ao esporte, os chamados sportman, responsáveis pela fundação de diversos centros de treinamento de ginástica e halterofilismo em clubes do Rio de Janeiro, entre os quais se destacavam o Club S. Cristóvão, o Club Ginástico Português, o Club Botafogo e o Club Fluminense, entre outros.

 

Os “sportman”

 

Nas duas primeiras décadas do século XX, em um contexto de pouca profissionalização e especialização das atividades e do ensino físico, surgiu o conceito de sportman. Mais do que um título, a ideia de sportman representava um estilo de vida, semelhante a outros adjetivos correntes da época, como dândi ou esteta. Tratava-se, em sua maioria, de jovens dedicados a uma miríade de atividades físicas voltadas ao aprimoramento corporal e pessoal.

Em certo sentido, esse movimento integrava uma ampla corrente cultural neoclássica, que buscava, no campo esportivo, o retorno ao ideal grego de “corpo são e mente sã”. Esses entusiastas do esporte figuraram entre os primeiros atletas brasileiros de determinadas modalidades, como o levantamento de peso, tornando-se posteriormente professores e divulgadores dessas práticas.

Esse foi o caso do pioneiro José Floriano Peixoto, o Zeca, filho do ex-presidente Floriano Peixoto e modelo de sportman no Brasil. Dedicou-se ao remo, ao boxe, à luta greco-romana, à natação, à capoeira, ao tiro esportivo, à ginástica e, naturalmente, ao levantamento de peso. Em 1905, fundou um dos primeiros centros especializados em treinamento de ginástica e halterofilismo — modalidades então intimamente vinculadas —, denominado Centro de Cultura Physica, localizado no Clube S. Cristovão.

O referido centro foi fundamental para a formação de uma nova geração de atletas que, posteriormente, se tornariam agentes centrais na divulgação do esporte no Brasil. Outro elemento importante na trajetória de Zeca Peixoto foi o fato de que, naquele contexto de amadorismo e ausência de profissionalização das atividades físicas no país, havia forte associação entre a demonstração das práticas corporais e os espetáculos circenses. Era comum que atividades de ginástica e luta fossem apresentadas em circos e, mesmo em outros espaços, mantivessem uma lógica próxima à dos “shows de variedades”. O próprio Zeca, por exemplo, tornou-se empresário circense ao criar o Pavilhão Floriano.

Seguidor e continuador do legado de Zeca Floriano, o atleta Jayme Martins Ferreira iniciou sua trajetória no próprio Centro de Cultura Physica. Destacou-se ao conquistar diversos prêmios de levantamento de peso e luta greco-romana, inclusive vencendo um campeonato internacional dessa modalidade em São Paulo. Na Bahia, foi pioneiro na inauguração de centros de treinamento de levantamento de peso e ginástica. De volta ao Rio de Janeiro, fundou o Club Carioca de Box, onde atuou como professor das modalidades supracitadas.

Nesse momento, já na década de 1930, a abordagem amadora passou a assumir contornos mais profissionais, abandonando gradativamente as antigas práticas circenses e defendendo a “prática de gymnástica sueca scientifica e racional”. Apesar dessa inflexão em direção a uma perspectiva mais científica e profissional, a justificativa da atividade física ainda permanecia vinculada à concepção moral e edificante do estilo de vida sportman, cuja função era fazer com que “ao joven que ao invés de corromper-se na estrada viciosa dos ‘cabarets’, enpregne alguns momentos na defesa do corpo contra os desregramentos da vida bohemia”.

 

A competição de 1916 no Clube Ginástico Português

 

O Clube Ginástico Português consagrou-se como um dos mais tradicionais e antigos do Rio de Janeiro. Fundado em 1868 pelos irmãos João José Ferreira da Costa e Antonio José Ferreira da Costa, permanece em funcionamento até os dias atuais.

Com a chegada do português Pedro Dias ao Rio de Janeiro, em 1915 — um dos grandes divulgadores da escola francesa de levantamento de peso —, o Club Ginástico Português, que tradicionalmente já possuía vocação para a ginástica e o halterofilismo, recebeu novo impulso na promoção do esporte. Isso ficou evidente nos campeonatos de levantamento de peso de 1914, 1915 e 1916, todos vencidos por Jayme Martins Ferreira.

O campeonato de 1916, em especial, foi marcante. Tratava-se não apenas de uma competição de levantamento de peso, mas também da comemoração dos 48 anos do Club, que contou ainda com concerto e baile. Em documento do Arquivo Nacional, encontra-se a descrição do evento, em que “não havia somente ali grande número de rapazes ‘musculomanos’, como cavalheiros de mais idade, notando-se mesmo a presença de gentis senhoras que até o fim externaram o mais apaixonado interesse pelo espetáculo do vigor e da destreza muscular”.

O evento, considerado um sucesso, expressa de maneira significativa aquele momento do halterofilismo nacional em que, por um lado, predominava o amadorismo e, por outro, surgiam as primeiras iniciativas de organização e institucionalização da modalidade.

 

Referências

 

NEVES, Thiago Gonçalves. Os primórdios do halterofilismo e do fisiculturismo no Brasil. 2012. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Educação Física) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012. Disponível em: Lume UFRGS. Acesso em: 26 maio 2026. (lume.ufrgs.br)

REAL SOCIEDADE CLUBE GINÁSTICO PORTUGUÊS. História. Rio de Janeiro, [s.d.]. Disponível em: Clube Ginástico Português. Acesso em: 26 maio 2026.

SILVA, Ermínia. Entre o pódio e o picadeiro: o sportsman circense Zeca Floriano. História da Educação, Porto Alegre, v. 18, n. 44, p. 95-111, set./dez. 2014. Disponível em: SciELO. Acesso em: 26 maio 2026.

 

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