
Conflitos bélicos – guerras – acabam resultando em mudanças em vários aspectos das nossas vidas, mesmo das vidas das pessoas e nações que não estiveram envolvidas no evento. Guerras exigem vidas, tempo, recursos materiais, inovações. A corrida pela vitória constitui uma triste e trágica competição entre a capacidade de perder mais vidas, investir mais dinheiro, pensar fora da caixa para derrotar o inimigo, inventar novas tecnologias e estratégias. Contudo, longe de ser apenas um combate entre as forças armadas e identidades nacionais, as guerras expressam conflitos e disputas de interesses econômicos, financeiros, geopolíticos.
As consequências das guerras dependem, obviamente, da sua magnitude e dos recursos envolvidos. Além de vidas perdidas e economias arrasadas, muitas das tecnologias envolvidas neste processo destrutivo passam a integrar nosso cotidiano, a produção, a moda, a forma de se alimentar, os tratamentos de saúde. Hábitos, preconceitos e status sociais são criados e destruídos na mesma medida, e teorias sociais e econômicas são forjadas no bojo desse evento desastroso.
Tais afirmações ganharam popularidade em especial após os devastadores eventos bélicos do século passado, e podiam ser facilmente constatadas na vida de muitas pessoas e em atividades não relacionadas com a guerra em si: o surgimento de copos que mantêm temperatura ao longo do tempo; alimentos liofolizados; o forno de microondas; realidade virtual. Os antibióticos foram aperfeiçoados e popularizados durante a Segunda Guerra; tecnologias que originaram a computação moderna, o wi-fi e o blutooth também nasceram naquele período, em que as anfetaminas e outras drogas acabaram se popularizando.
No mundo do capitalismo corporativo contemporâneo, um aspecto crucial da guerra desenvolveu-se de forma essencialmente rápida e robusta, moldando o mundo como nós o conhecemos: o chamado complexo industrial militar.
Embora já houvesse um conjunto de atividades articuladas para viabilizar o conflito bélico entre Estados antes do século XX, foi apenas no século passado que tais atividades passaram a atuar com a força dinâmica que permitiram que, hoje em dia, representem um gigantesco volume em termos de produção e lucros. Empreendimentos quase artesanais (a maioria das armas usadas na Guerra Civil norte-americana funcionava da mesma forma que armas usadas na Guerra de independência, quase 100 anos antes) deram lugar a sofisticadas corporações, que envolviam a produção de armas, alimento adaptado, matéria prima necessária, vestuário adequado, transporte, remédios, venenos. Ao longo de décadas de guerras mundiais, de independência, fria, conflitos internos, imperialistas um complexo inédito acabou se formando, e atualmente este complexo movimenta bilhões de dólares.
Segundo o Instituto de Pesquisa da Paz Internacional de Estocolmo (Itotkolm International Peace Research Institute), os gastos mundiais com armas em 2008 somaram US$1.468 bilhões; somente os Estados Unidos – lar por excelência desse complexo - representaram US$ 603 bilhões desse total – em armas, apenas. Não é difícil perceber as consequências nefastas de uma indústria bélica e outras a ela associadas (atualmente, uma das parcerias mais lucrativas é com a indústria de alta tecnologia digital) que concentram imenso poder econômico e político – e que podem inclusive fomentar conflitos, campanhas e revoltas com o único intuito de lucrar.
Os supostos “benefícios” advindos da indústria militar e dos conflitos armados – na verdade, apenas adaptações de tecnologias que poderiam muito bem ter surgido em outros contextos – vêm se tornando menos visíveis, e seu caráter ideológico, explicitado. O nível de sofisticação e densidade tecnológica da indústria bélica atual, sua especificidade extrema e grau de confidencialidade vêm tornando a permeabilidade entre as tecnologias militares e a vida cotidiana quase inexistente.
O decreto https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6703.htm 6703 criou a Estratégia Nacional de Defesa do Brasil, atualizada em 2012, 2016, 2020 e 2024; ela apresenta uma noção ampla de defesa e segurança, questões ambientais, econômicas, societais e políticas; enfatiza a necessidade de atualização constante das forças armadas, serviços de inteligência, tecnologia da informação, representando um movimento diverso da proposta do complexo industrial militar, voltado basicamente para a defesa e subordinando a indústria a esses interesses específicos.
A complexidade do tema – defesa, segurança, indústria bélica, confidencialidade – não deveria ter por consequência o afastamento sistemático das discussões e debates democráticos. Vivemos em um mundo em que gigantescas corporações funcionam de forma articulada para produzir e vender de sistemas orientadores para foguetes e mísseis a carros autônomos. Drones estão sendo fundamentais nas guerras atuais, assim como aviões o foram no início do século XX. O peso econômico das indústrias de armas, armamentos e equipamentos de defesa – embora raramente atinjam o nível do que acontece nos Estados Unidos – torna premente que a sociedade se inteire das consequências amplas da política de defesa do seus país.

Os arquivos sonoros que integram esta matéria encontram-se no fundo Agência Nacional. A série Acredite se quiser mostrava aspectos da guerra que muitas vezes escapavam do noticiário cotidiano: as comunicações, usos de inovações tecnológicas, transportes. A forte presença das mulheres no conflito fazia-se sentir no apoio às tropas, nos serviços de saúde, na infra-estrutura e logística da guerra, em combate, nas comunicações, na fabricação de armas e insumos. Seu papel na guerra acabou se tornando um dos fatores decisivos no processo de mudança da imagem da mulher e do seu papel na sociedade.
A fotografia de introdução mostra mulheres sinaleiras em bateria anti-aérea norte-americana e em fábrica de armamento [1942], s.l. Correio da Manhã.
A fotografia seguinte mostra a arrecadação de cigarros para soldados brasileiros. Rio de Janeiro, 1943. Agência Nacional.
Os arquivos sonoros, série Acredite se quiser, de 1943 (em links no texto):
BR RJANRIO EH.0.DSO, DIS.123: Produtos químicos sulfa. (programa nº 1)
BR RJANRIO EH.0.DSO, DIS.130: Alimentos desidratados. (programa nº 8)
BR RJANRIO EH.0.DSO, DIS.131: As mulheres na guerra. (programa nº 13)
ALMEIDA, J. R. M. D. (2012). Considerações acerca do complexo industrial-militar e a acumulação imperial-capitalista no entre guerras mundiais. FONSECA-SILVA, Maria da Conceição &.
dos Santos Val, S. (2010). A tecnologia como fetiche: a ilusão do complexo industrial militar. Revista Marítima Brasileira, 130(01/03), 79-88.
SANTOS, Ediane Maria dos. A função do complexo militar-industrial na reprodução do sistema do capital. 2020. 126 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Faculdade de Serviço Social, Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2020.
Feres, C. de L. P. (2024). Ser mulher na Segunda Guerra Mundial: Um olhar sobre o universo feminino na década de 40: no lar, na rua e no esforço de guerra. Cordis: Revista Eletrônica De História Social Da Cidade, (33), e67534. https://doi.org/10.23925/2176-4174.v3.2024e67534