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Camafeu de Oxóssi: o mestre de berimbau, obá de Xangô e senhor do Mercado Modelo pelas lentes da Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa.

 Em novembro de 1968, a rainha Elizabeth II desembarcou em Salvador e, cercada de pompa oficial, deixou-se conduzir pelos corredores estreitos e barulhentos do Mercado Modelo. Foi nesse cenário de vida popular que a monarca britânica se deparou com uma roda de samba comandada por um homem de presença única: Camafeu de Oxóssi. Ali, no coração do mercado, ele teria improvisado versos que atravessaram o protocolo e arrancaram da rainha um raro encantamento.

 

Sua Magestade Rainha Elisabete

Vossa visita muito nos honrou

Em colocar no seu roteiro

A Igreja de São Francisco e o

Mercado Modelo de Salvador.[1]

 

O episódio, narrado pelo Correio da Manhã quase como uma lenda, ajuda a compor a imagem de Camafeu de Oxóssi: um mito popular em vida, cuja presença extrapolava o cotidiano e maravilhava quem o encontrava. É essa a figura que a fonte filmográfica do fundo “Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa” permite reconstruir. Sua trajetória mistura capoeira, religiosidade, música, resistência e cultura popular, costurando a história da Bahia do século XX. Certamente por isso, Araken Távora o escolheu como monumento vivo, em meio às imagens do “território cultural da Bahia”, para ser apresentado a partir de uma interessantíssima entrevista com Jorge Amado, em 1978, o qual não poupou elogios para descrever Camafeu.[2]

Ápio Patrocínio da Conceição nasceu em 4 de outubro de 1915, na rua do Gravatá, no bairro de Nazaré, em Salvador. Filho de Faustino José do Patrocínio e Maria Firmina da Conceição, construiu desde criança uma ligação com a vida popular da cidade. Foi pedindo dinheiro na porta do cinema Olímpia para assistir o seriado Camafeu Amarelo que recebeu seu famoso apelido. Trabalhou nas ruas como engraxate, vendedor de jornais e cadarços, etc. Em 1945, conquistou sua primeira barraca no Mercado Modelo, espaço que se tornaria seu território de vida, de expressão cultural, mas também de ascensão social e econômica.

Seu caminho, porém, não se restringiu ao mercado. Em 1961 foi um dos primeiros alunos do curso de iorubá na UFBA, reafirmando sua conexão com as raízes africanas da cultura baiana. Poucos anos depois, em 1966, atravessou o Atlântico para participar do I Festival Mundial de Arte Negra, em Dakar, ao lado do mestre Pastinha, Clementina de Jesus, Elizeth Cardoso, Haroldo Costa e outros. Essa viagem não apenas colocou a capoeira e a cultura baiana no mapa internacional, mas também marcou Camafeu como elo vivo entre a África e a diáspora.

Além de músico e mestre de berimbau, gravou discos importantes para a memória da capoeira e da música afro-baiana, como Berimbaus da Bahia (1967), um dos primeiros discos comerciais de capoeira e candomblé. Contudo, sua vida também teve momentos de grande perda: em 1969 viu seu mundo virar cinzas no incêndio do antigo Mercado Modelo, onde perdeu tudo. Reconstruiu-se ao lado da esposa Toninha, inaugurando em 1971 um restaurante no novo Mercado Modelo.

Entre 1976 e 1982, assumiu a presidência do afoxé Filhos de Gandhi, um dos maiores símbolos do carnaval da Bahia, tornando-se ainda mais reconhecido como liderança cultural e espiritual. Sua trajetória cruzou com nomes que também ajudaram a traduzir a Bahia para o mundo — encontrou-se e conviveu com artistas como Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Carybé e, como demonstra o vídeo, Jorge Amado —, numa troca constante entre a tradição popular e a produção artística moderna.

Criada em 1967 pela Ditadura Militar, a TVE era parte do projeto de integração nacional, propaganda ideológica e saneamento educacional promovido pela ditadura.[3] Assim, a representação de Camafeu de Oxóssi, e das cenas de Salvador de um modo geral, pode ser lida dentro da política de valorização sociocultural, divulgação cultural e integração nacional, que faziam parte dos objetivos da TV Educativa. A televisão era vista como arma para preparar o povo por meio de um conteúdo cultural de qualidade, ou seja, dentro dos padrões elitistas e higienistas que caracterizaram as políticas da ditadura. Por outro lado, a produção da TVE, especialmente aquela parte dedicada ao folclore, à cultura popular e à cultura negra, permite acessar agentes culturais e populares relevantes da história recente brasileira.

Esta fonte, desde que lida a contrapelo, exemplifica a riqueza cultural registrada e construída pelas lentes da TVE. O vídeo se abre com Jorge Amado, que destaca a importância do programa Os Mágicos em registrar cenas de Salvador, como se fosse um recorte vivo da cidade e de sua cultura. Após essas imagens, a câmera retorna ao escritor, que desta vez se debruça sobre Camafeu de Oxóssi, dando voz ao personagem por meio de uma narrativa elogiosa. O homem negro, com bigode grosso, camisa branca, calça clara, chapéu de palha e abas largas, lhe confererindo imponência serena, surge caminhando pelo restaurante à beira da Baía de Todos-os-Santos. Representado como espécie de ponto turístico, ele percorre os espaços enquanto fuma um cigarro e, em alguns momentos, encara diretamente a câmera, estabelecendo um diálogo silencioso com o telespectador. As imagens, entremeadas pelos belos pratos preparados pelas baianas, transcorrem sem som, criando um contraste com as cenas de Jorge Amado, este digno de ser ouvido, e a cena final. É então que, privado de voz ao longo da gravação, Camafeu se comunica pelo berimbau, reafirmando o retrato feito por Jorge Amado: mestre do instrumento, senhor do Mercado Modelo, símbolo maior da civilização baiana.[4]

Camafeu faleceu em 26 de março de 1994, mas deixou como herança muito mais do que músicas ou memórias: deixou a imagem de um homem simples, íntegro e profundamente conectado ao seu povo.

Fontes Bibliográficas:

 AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos : guia de ruas e mistérios 1912-2001. Rio de Janeiro : Editora Record, 2000.

 

BARROS FILHO, Eduardo Amando de. A Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa: debates, projetos e práticas à produção e difusão de conteúdos tele-educativos na Ditadura Militar, 1964-1981. 2017. 301 f. Tese (Doutorado em História). – Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Assis, 2017.

 

Sites:

CAMAFEU DE OXÓSSI: Museu AfroBrasil, História e Memória, Disponível em: https://web.archive.org/web/20190209014740/http://www.museuafrobrasil.org.br/pesquisa/hist%C3%B3ria-e-mem%C3%B3ria/historia-e-memoria/2014/07/17/camafeu-de-ox%C3%B3ssi. Acesso em 10 de setembro de 2025.

CAMAFEU DE OXÓSSI, Wikipedia: Enciclopédia Livre:   https://pt.wikipedia.org/wiki/Camafeu_de_Ox%C3%B3ssi#cite_note-museu-1. Acesso em 10 de setembro de 2025.

Periódicos consultados na Hemeroteca Digital Brasileira:

Correio da Manhã (RJ), n. 23409, 9 de agosto de 1969.

A Manchete (RJ), n. 1055, 8 de julho de 1972.

O Cruzeiro: Revista (RJ), n. 47, 20 de novembro de 1974.

Vídeo:

BR RJANRIO FS.0.FIL.2260 - http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_rjanrio_fs/0/fil/2260/br_rjanrio_fs_0_fil_2260_d0001de0001.mp4. Acesso em 10 de setembro de 2025.



[1] Correio da Manhã, n. 23409, 9 de agosto de 1969. Uma versão semelhante aparece na revista O Cruzeiro n. 47, 1974, p.6.

[2] Araken Távora, jornalista renomado, é citado por Jorge Amado como responsável pela escolha do programa Os Mágicos em filmar a cultura da Bahia.

[3] Barros Filho, Eduardo Amando de. A Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa. UNESP, 2017.

[4]A versão do vídeo apresentada inverte essa ordem, começando pela cena de Camafeu com o Berimbau

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