Recentemente uma professora e pesquisadora da Unicamp, a antropóloga Maria Suely Kofes, realizou uma pesquisa em São Paulo cuja primeira pergunta era: você acha que existe preconceito racial na sociedade brasileira?. Quase 100% dos entrevistados responderam que sim. E a segunda pergunta era: Você tem preconceito?. Quase todos responderam que não.
De onde, então, vem tanto preconceito?
É um lugar comum no Brasil falar em democracia racial, que o Brasil não é um país racista. Embora nas últimas décadas o consenso em torno do tema não exista mais, esse mito fundador brasileiro ainda é bastante popular. Elaborado especialmente por eminentes intelectuais na primeira metade do século XX, o mito evoca uma suposta colaboração entre três raças de origens diversas que formaram a nação brasileira, cada qual contribuindo quase que equitativamente para a elaboração da nossa cultura. Fala também de uma suposta benevolência portuguesa em relação aos povos subjugados, de uma alegada convivência pacífica entre brancos, negros, índios _ a despeito da admitida violência inicial contra os indígenas (que tiveram suas terras roubadas), e contra os africanos (que foram roubados das suas terras).
Esse mito permeia a sociedade brasileira, em que disseminou-se a ideia de que no Brasil não havia preconceito de raça ou cor, sendo a nossa sociedade, permeável à ascensão social e às relações cordiais entre indivíduos de raças diferentes. Mas a realidade de um país em que negros ganham menos do que brancos, possuem menor grau de escolaridade, são mais atingidos pelo desemprego e pelo subemprego, constituem a maior parcela de vítimas de morte violenta desafia a ideia de que o Brasil é um país pacífico formado por três “raças” que vivem relações cordiais.
Alguns dados oferecem um panorama desanimador em relação a nossa desigualdade racial: cerca de 70% das vítimas de assassinato em nosso país é negra; a expectativa de vida de homens brancos é de 74.5 anos, e a de homens negros, 68.6; 26% de jovens brancos frequentavam o ensino superior em 2016, contra 13% dos jovens negros, desigualdade reproduzida em todos os níveis de ensino.
Estas questões permeiam nossa história, desde muito antes de terem sido articuladas pelos intelectuais e exibidas em livros, palcos e telas por escritores, cineastas e dramaturgos. País colonizado por europeus que dizimaram e esbulharam os ´povos autóctones e construíram sua riqueza às custas do sofrimento de milhões de escravizados trazidos do continente africano, a partir do momento em que se constituiu em entidade autônoma e nação em busca de uma identidade o Brasil foi obrigado a se defrontar com os conflitos e confluências de uma sociedade etnicamente diversa.
Filme: BR RJANRIO EZ.0.FIL.81- Quisito Cor. s.d, s.l. Conselho Nacional dos Direitos da Mulher
https://imdsbrasil.org/publicacao/expectativa-de-vida-por-raca-ou-cor-no-brasil/
https://unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/jornalPDF/cad158_jan2001.pdf