As férias escolares não são apenas um intervalo no calendário acadêmico, mas um fenômeno historicamente construído, atravessado por diferentes disputas de sentido. Ao longo do tempo, esse período foi sendo preenchido por projetos que buscaram orientar sua função social, entre os quais se destacam as colônias de férias. Pensadas inicialmente para crianças das camadas populares, essas experiências propunham um deslocamento físico e simbólico: sair da cidade e aproximar-se de ambientes naturais, como o campo, o litoral e as regiões montanhosas.
A partir das primeiras décadas do século XX, iniciativas voltadas à educação ao ar livre começaram a ganhar espaço no país, muitas vezes articuladas à medicina preventiva e inspiradas em experiências estrangeiras. Ao lado dessas propostas, instituições como a Associação Cristã de Moços desempenharam papel importante na difusão de práticas esportivas e recreativas, contribuindo para consolidar a educação física como elemento essencial na formação infantil.

Em sua gênese, essas iniciativas estavam longe de se restringirem ao entretenimento: emergiram fortemente vinculadas a concepções médicas que valorizavam o contato com a natureza como estratégia de regeneração física. O ar puro, a luz solar e a água eram considerados elementos terapêuticos fundamentais, especialmente para crianças vistas como frágeis ou vulneráveis. Assim, o que mais tarde seria associado ao lazer teve, em sua origem, um claro fundamento higienista.
Esse vínculo com a medicina foi decisivo para a expansão das colônias de férias em escala internacional. No final do século XIX, essas experiências já circulavam entre médicos e gestores públicos como soluções possíveis para problemas de saúde infantil, sendo legitimadas em espaços científicos e incorporadas a políticas de assistência. Durante décadas, funcionaram como uma extensão das preocupações sanitárias, estruturando as férias escolares como um tempo útil ao descanso, mas também ao fortalecimento do corpo.
Durante o período varguista, esse movimento foi intensificado. O investimento estatal na educação física e na saúde refletia um projeto mais amplo de construção nacional, no qual a infância ocupava lugar estratégico. As colônias de férias, nesse contexto, integravam um conjunto de iniciativas voltadas à formação de uma população fisicamente preparada, capaz de atender às demandas do trabalho e da defesa nacional.
Ao longo do século XX, especialmente a partir dos anos 1950, a centralidade do discurso médico começou a perder a força. O avanço de novos tratamentos, sobretudo farmacológicos, deslocou o papel terapêutico anteriormente atribuído à natureza. Nesse cenário, as colônias de férias precisaram se reinventar — e encontraram no campo educacional uma nova base de legitimidade.
Gradualmente, passaram a ser compreendidas como espaços de formação, nos quais o corpo, o movimento e a convivência assumiam papel central. Mais do que recuperar a saúde, tratava-se de educar por meio da experiência: jogos, esportes, danças e atividades ao ar livre ganhavam destaque, especialmente por oferecerem às crianças das classes populares oportunidades raramente disponíveis em seu cotidiano. Nesse sentido, as colônias se afirmaram como experiências singulares de educação do corpo, influenciando inclusive outras propostas pedagógicas, como as escolas ao ar livre.
Também a partir dos anos 1950, da acelerada urbanização e industrialização do Brasil outras concepções acerca da saúde e da vida rural se alteraram, influenciando as formas de lazer e educação. No Brasil, essas tensões ganharam contornos específicos. A natureza, longe de ser vista de forma unívoca, aparecia tanto como fonte de cura quanto como espaço de risco e também de um certo atraso, contrapondo-se à ideologia desenvolvimentista de ênfase na vida urbana como fonte de progresso, limpeza, serviços médicos.
Com o tempo, mudanças nas políticas públicas e nas formas de organização social alteraram esse cenário. A diminuição do protagonismo do Estado na promoção direta dessas iniciativas coincidiu com o fortalecimento de outras instituições, como aquelas vinculadas ao chamado “Sistema S”, além de associações civis e iniciativas privadas. Como resultado, as colônias de férias passaram a assumir novos formatos, muitas vezes voltados ao lazer familiar, distanciando-se de suas funções originais.
Dessa trajetória, emerge um quadro complexo, no qual saúde, educação, lazer e controle social se entrelaçam. Mais do que simples espaços de recreação, as colônias de férias revelam-se como dispositivos históricos que expressam diferentes modos de pensar a infância, o corpo e a própria sociedade. As colônias de férias também podem ser entendidas como espaços nos quais o lazer é capturado por dispositivos de poder. Ao organizar o tempo livre, elas participam de uma economia política do corpo e da vida, na qual se articulam disciplina, regulação e produção de subjetividades. Longe de constituírem apenas momentos de descanso, revelam-se como engrenagens sutis de um sistema que administra não apenas o trabalho, mas também o próprio viver.
Os vídeos aqui apresentados pertencem ao fundo Agência Nacional e tratam das atividades desenvolvidas em colônias de férias em dois momentos diferentes. No primeiro (vídeo de abertura) vemos as atividades da colônia de férias do Forte do Leme, no Rio de Janeiro (Brasil Hoje n° 25;1972. Notação: BR_RJANRIO_EH_0_FIL_BHO_025). O segundo vídeo traz uma reportagem sobre a festa de encerramento da 10 ª Colônia de Férias no Campo dos Afonsos, zona oeste do Rio de Janeiro (Brasil Hoje n° 187; 1977. Notação: BR_RJANRIO_EH_0_FIL_BHO_188).
A fotografia, da coleção Fotografias Avulsas, mostra a visita de Hermes, presidente da República, ao Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro, entre 1910 e 1914. O Instituto fundado em 24 de março de 1899 por Arthur Moncorvo Filho (na fotografia, à direita), foi uma instituição pioneira no Brasil voltada para a saúde infantil, filantropia e higienismo.
Dalben, A. (2014). Mais do que energia, uma aventura do corpo: as colônias de férias escolares na América do Sul (1882-1950). Doutorado em Educação. Universidade Estadual de Campinas.
de Almeida, F. E., & Sugiyama, M. D. S. G. Colônias de férias: turismo e lazer do trabalhador. Trabalho apresentado ao GT “Turismo Social” do IV Seminário de Pesquisa em Turismo do Mercosul – Caxias do Sul, 7 e 8 de julho de 2006