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Dizer que o futebol é o ópio do povo tornou-se lugar comum em algum momento da nossa história, e mesmo hoje muitos ainda repetem essa frase. A importância do futebol para um grande número de brasileiros acaba por suscitar discussões e reflexões acerca dos seus reflexos na cultura e na política (e na cultura política) nacionais – até porque, não podemos esquecer, no Brasil atual as eleições presidenciais ocorrem sempre em ano de Copa do Mundo.

Desde a sua imensa popularidade, ascensão esta ocorrida na primeira metade do século XX, vários governos buscaram, de alguma forma, aproveitar-se dos louros das vitórias futebolísticas, e não apenas no Brasil. Também em algum momento de difícil precisão a seleção de futebol se tornou a “pátria de chuteiras,” e vemos em vários momentos da nossa história uma apropriação de elementos esportivos como signos de um suposto patriotismo, em um processo de perversão dos significados políticos de pátria, da nação, do Estado-nação e da defesa dos interesses e da identidade nacionais. Curiosamente, a política anti-política costuma desenvolver um interesse mais explícito e intenso no futebol.

Exemplos podem ser encontrados no período da ditadura militar no Brasil (1964-1985), quando o governo Castello Branco interveio na antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos, antecessora da CBF) após o fracasso na Copa de 1966; e antes da Copa de 1970, quando as críticas do presidente-general Emílio Médici foram uma das causas, segundo bastidores da própria seleção, da queda do treinador João Saldanha (embora esta tenha ocorrido em grande parte devido a desentendimentos com João Havelange, então presidente da CBD). Recentemente, vimos camisetas da seleção brasileira serem usadas por agitadores e baderneiros da extrema-direita como identificadores do seu posicionamento político.

No início dos anos 1980, quando o país lutava pelo retorno a democracia, jogadores de um time de São Paulo buscaram trazer para os gramados a discussão sobre os rumos do país ao mesmo tempo em que propunha uma nova forma de administrar o clube. Foi a chamada Democracia Corintiana, cujas faces mais conhecidas eram os jogadores renomados Sócrates, Casagrande, Zenon e Wladmir, mas cuja figura central e pilar do movimento chamava-se Adilson Alves, sociólogo que assumiu a diretoria de futebol do Corínthians em 1982.

Tido por alguns como uma instituição política informal no Brasil, o futebol se relaciona com diversos outros campos da vida social e oferece fácil permeabilidade a interesses políticos.

O trecho de vídeo mostrado nesta matéria integra o filme “Jango: dez anos de incerteza e esperança”, realizado pela equipe de pesquisa do Arquivo Nacional e disponível na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=C4Hh9XScQ5I. O áudio – trecho de um programa de rádio do Serviço Social da Indústria, cujo fundo de mesmo nome (Sesi) encontra-se no Arquivo Nacional – traça comparações entre o jogo de futebol da seleção, em que todos vestem a mesma camisa objetivando o sucesso, e o ato de votar, em que cada brasileiro, ao votar, colabora para o sucesso da pátria. O filme é um registro de jogo da seleção brasileira de futebol masculino na copa de 1962 (fundo Tv Tupi).

 

FORTUNA, Vania; ALVES DE RESENDE, Marcelo. Narrativas midiáticas para o “dessequestro” da camisa da seleção brasileira de futebol: Política e futebol: a Canarinho em disputa. ALCEU[S. l.], v. 24, n. 52, p. 38–58, 2024. DOI: 10.46391/ALCEU.v24.ed52.2024.412. Disponível em: https://revistaalceu.com.puc-rio.br/alceu/article/view/412. Acesso em: 19 fev. 2026.

NASCIMENTO, Jefferson Ferreira do; BRAGA, Maria do Socorro Sousa. O futebol como meio campo para a política: o jogo além das quatro linhas. Revista de Sociologia e Política, v. 30, p. e023, 2022.

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