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A produção artística, como não poderia deixar de ser em uma sociedade dominada por homens, caracteriza-se pela normalização da narrativa e do imaginário masculinos e, em muitos países (o nosso, inclusive) brancos. O ponto de vista do homem branco passa a ser encarado como um “padrão universal,” e todas as outras formas de ver o mundo carregam o estigma dos “particularismos,” das “especificidades”. Um livro escrito por um homem é visto como uma obra universal, que a todos fala. Um livro escrito por uma mulher será visto como um “livro feminino.”

Maria Firmina dos Reis, maranhense nascida no início do século XIX, foi uma das primeiras escritoras brasileiras e lançou o livro – de temática abolicionista - Ursula em 1859. No século XX outras mulheres, algumas negras, surgiram no cenário da literatura nacional mas este ainda permaneceu dominado pela voz masculina. A presente foto registra personagens importantes para a nossa história e cultura. Sabe dizer quem são?

 

 

A literatura, por incorporar saberes e hábitos historicamente circunscritos às elites em muitos momentos foi vista como sua expressão maior, embora permeável a temáticas pertinentes a várias classes sociais. Algumas obras literárias – para ser mais precisa, algumas obras de arte – apresentam um potencial perturbador da ordem estabelecida, das crenças dominantes, dos poderes vigentes. O silêncio ou o alarde suscitado por estas obras perigosas, questionadoras vincula-se ao contexto maior em que são recebidas – tanto pelo público geral, quanto pela crítica especializada e a academia, loci por excelência das discussões em torno das manifestações artísticas ditas eruditas. Quando os criadores de tais obras perturbadoras originam-se de uma classe social ou uma minoria marginalizada, seu potencial questionador aumenta, menos pelo conteúdo do que pelo desafio representado por uma voz, um olhar, uma narrativa fora dos padrões vigentes.

Carolina Maria de Jesus, uma autora negra e pobre nascida em 1914, alcançou estrondoso sucesso no início dos anos 1960, no Brasil e no mundo. Vendeu um número espantoso de livros – cerca de um milhão de cópias em todo o mundo – foi traduzida para 13 idiomas, sendo um dos textos brasileiros mais lidos no exterior. Contudo, passado o primeiro impacto, sua obra sofreu um inusitado apagamento do qual apenas nos últimos anos conseguiu se desvencilhar. Embora na época muitas autoras de novas e antigas gerações obtivessem intenso sucesso de público, crítica e mídia, o movimento feminista expressou pouco interesse em uma mulher pobre e negra, moradora de uma favela em São Paulo e com um perfil e uma abordagem literárias radicalmente diferente de tudo o que as mulheres brancas e instruídas que na época discutiam os direitos das mulheres conheciam. O movimento negro tampouco pareceu se interessar em adotar a mulher que tivera 3 filhos com 3 pais diferentes, todos brancos, e que não parecia – a primeira vista – se identificar com as restrições impostas por uma sociedade estruturalmente racista.

Carolina, nascida no interior de Minas Gerais, estudou por apenas 2 anos. Depois de migrar pelas cidades do seu estado natal, acabou na periferia de São Paulo, inicialmente como doméstica, posteriormente como catadora de papel para reciclagem. Desde cedo apresentou o desejo de ser artista – de circo, ou escritora. Mãe solteira, conheceu seu editor, o jornalista Audálio Dantas quando este a ouviu dizer, em meio a uma discussão com um vizinho, “vou colocar você no meu livro!” Curioso, abordou Carolina e por esta foi apresentado a uma série de cadernos escritos por ela sobre sua vida, seu cotidiano, suas considerações – tais cadernos, iniciados em 1955, dariam origem ao livro Quarto de despejo pela editora Francisco Alves e lançado em 1960.

No início dos anos 1960 o Brasil passava por um enriquecedor período democrático, carregado de discussões sobre a desigualdade que o desenvolvimento industrial não só não conseguia resolver como acabou acentuando; a pobreza nas cidades; o analfabetismo; o acesso dos mais pobres aos bens e serviços públicos; enfim, discussões sobre uma sociedade de fato democrática. Nesse contexto, o livro de Carolina ganhou as cores de um novo país: moderno mas atrasado ao mesmo tempo, que não hesitava em se olhar no espelho e discutir suas mazelas.

O golpe de 1964 sufocou todas as discussões e as vozes dissonantes, inclusive aquelas que se originavam de grupos marginalizados. Encerrou a experiência democrática. Iniciou um período sombrio que acentuou nossas desigualdades. E, para a carreira de autora de Carolina, representou o obstáculo maior e final. Para uma escritora que não fora acolhida pelos grupos mais óbvios – as mulheres/ feministas, os afrodescendentes -, o fim das discussões em torno das condições sócio-econômicas que haviam criado obra e criadora foi devastador.

Na fotografia do Correio da Manhã, Carolina ao lado do então governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola, aliado do Presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964.

Notação: br_rjanrio_ph_0_fot_26878_006. Porto Alegre (Palácio Piratininga), março de 1961.

Leitura recomendada:

Meihy, J. C. S. B. (1998). Carolina Maria de Jesus: emblema do silêncio. Revista USP, (37), 82-91.

 Perpétua, E. (2003). Aquém do Quarto de despejo: a palavra de Carolina Maria de Jesus nos manuscritos de seu diário. Estudos de literatura brasileira contemporânea, (22), 63-83.

 

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