
Francisco Pedrosa
Mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco
Canto dos emigrantes
Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.
De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.
Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.
Alberto da Cunha Melo
Quando pensamos em migração, e em comunidades de migrantes, nos vem à cabeça, de maneira geral, imigrantes externos. Por exemplo, imaginamos as China Town, bairros de imigrantes asiáticos e chineses, em Nova York ou em Londres. Também podemos nos lembrar do tradicional bairro da Liberdade, de maioria japonesa, na cidade de São Paulo. Dessa forma, pequenas itálias, turquias e grécias se disseminam como centros de moradia e difusão cultural em diferentes cidades ao redor do mundo.
Contudo, nos esquecemos de um fluxo importante, notadamente maior que o externo, realizado por migrantes internos, advindos de outras regiões de um mesmo país. Esse tipo de migração, apesar de ser realizada por cidadãos de uma mesma entidade política, com cultura e língua relativamente comuns, tem o mesmo, ou maior, impacto nas dinâmicas sociais de determinado país.
No caso do Brasil, a região, por excelência, que protagonizou o maior fluxo de repulsão foi a nordestina. O povo dessa região, a mais antiga da colonização portuguesa, alimentou, em seu êxodo, a rápida urbanização do Sudeste e a ocupação do Norte e do Centro-Oeste, neste último protagonizando a construção da nova capital federal, Brasília, onde ganharam a alcunha de “candangos”.
Assim como suas contrapartes estrangeiras, nos grandes centros urbanos do Sudeste e Sul encontramos bairros e mercados que se tornaram símbolos da migração nordestina. No Rio de Janeiro, temos o Centro Luiz Gonzaga em São Cristóvão e, em São Paulo, o atual Centro de Tradições Nordestinas. Além da similaridade em relação a lugares de pertencimento, no Brasil ocorreu ainda o fato de que parte da infraestrutura de recepção de migração externa foi readaptada para acolher o forte número de migrantes internos, como no caso da Hospedaria de Imigrantes, em São Gonçalo, na Ilha das Flores, que funciona hoje como museu da imigração no Rio de Janeiro.
Apesar do aspecto corriqueiro, ou pelo menos bem adaptado na paisagem cultural das regiões de atração — leia-se Sudeste —, a migração interna não constitui um fenômeno natural, espontâneo, sem fundamentos históricos ou consequências societais. Ao contrário, basta um exercício contrafactual simples — imaginar centros de cultura sudestina em capitais do Nordeste — para trazer à tona o estranhamento inerente a esse tipo de processo migratório. Em adição, o processo evidente de substituição de migrações externas por internas, e a utilização do mesmo aparato governamental em ambos, mostram o caráter ambivalente que caracteriza essa forma de deslocamento. O migrante nordestino pertence, como brasileiro, ao mesmo local da região de atração, mas, como advindo de outro contexto cultural e social, também vivencia a experiência de não pertencimento, como um estrangeiro em seu próprio país. É na dialética dessa integração desintegrada que se configura o drama do migrante interno.
O processo migratório interno não foi fruto do acaso, mas uma escolha política coletiva. Da mesma forma, o apagamento relativo — em um país que ostentava com orgulho as origens europeias dos antepassados — é substituído por um viés cultural de estigmatização e, no pior dos casos, de racismo.
O que pretendemos mostrar aqui é, na verdade, uma forma de olhar o migrante nordestino. Essa forma é fruto do encontro dos olhares do público, dos produtores de arte e do Estado. Também, claro, é consequência da maneira como os nordestinos enxergam a si próprios nesse processo. De toda maneira, como veremos, essa maneira de enxergar a região é complexa, misturando alteridade, identidade, sub-representação e violência simbólica.
O olhar das instituições
A experiência pessoal pode sugerir que o processo de migração trata de um fluxo natural entre uma região rica em mão de obra em direção a outra rica em capital; dito de outro modo, empregos. Esse aspecto favorece a ideia de que a pobreza regional trata-se de responsabilidade única dos nordestinos que, incompetentes em desenvolver sua economia local, só lhes restaria a migração para outras regiões. Assim, percebemos que existe uma coincidência entre um olhar sobre a realidade econômica e outro sobre a estigmatização social. Torna-se natural o deslocamento e a subalternidade do migrante, destinado a empregos de menor renda e prestígio. Contudo, nada na história é natural.
Existe um processo de longa duração envolvendo a passagem da centralidade da região Norte para a Sul do Brasil. O processo remete à mudança da capital colonial da Bahia para o Rio de Janeiro, ainda no século XVIII, motivada, em grande medida, pelas necessidades de segurança na região da prata. Houve um momento de intensificação no período minerador, mesmo que, em termos de receitas externas, o açúcar nordestino seguisse liderando a pauta de exportações. Contudo, foi a partir dos anos de 1850 que encontramos o afastamento econômico relativo entre as regiões brasileiras.
O café, na segunda metade do século XIX, primeiro no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, acabou por se tornar não apenas o principal produto de exportação, mas também a prioridade, em termos de investimento direto e crédito, do Estado monárquico brasileiro. Em uma época em que a receita do Estado advinha principalmente da tarifa sobre as exportações, o café criava um ciclo econômico virtuoso para a região Sudeste — como fonte principal da renda do Estado, tornou-se objetivo estratégico deste último a manutenção e expansão da produção cafeeira. Em relação ao Nordeste, com suas principais commodities, açúcar e algodão, competindo com grandes centros produtores — ao contrário do monopólio do café brasileiro —, a renda por exportação caiu de maneira consistente. Restou, em uma época em que o repasse do poder central para as províncias era ainda incipiente, o financiamento por meio dos impostos intraprovinciais, utilizados como brecha na lei, que, na década de 1870, correspondiam a cerca de 20% a 30% da receita da região.
Na Primeira República, a desigualdade regional tendeu a se aprofundar. As diversas defesas, estaduais e da União, para a manutenção do preço internacional do café continuaram, inclusive com maior presença política de São Paulo na federação, sendo quatro os presidentes oriundos desse estado. Fato interessante é que, na industrialização incipiente, ainda na década de 1910, sobretudo após a Primeira Guerra, a distância entre os parques industriais de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco não era tão expressiva, sendo a produção baseada nos mesmos tipos de bens básicos: têxteis e alimentos. Contudo, vigorava no Brasil uma baixa integração do território nacional, um verdadeiro “arquipélago”, sem um mercado interno estruturado, o que ajudava na proteção das indústrias de regiões mais afastadas.
A dissidência oligárquica liderada por Getúlio Vargas, e que terminou o período republicano anterior, tinha em sua proposta inicial uma diversificação de investimentos em outras lavouras além do café. Isso esteve no bojo da criação do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que previa subsídio e apoio técnico ao plantio da cana. Esse programa visava incentivar a produção de açúcar voltada ao mercado interno, vista a perda de competitividade do produto em escala internacional. Dessa forma, o maior montante de crédito, seguindo a diretriz da política, seria direcionado ao estado que continha o maior mercado consumidor do produto, promovendo, assim, uma economia de escala. No contexto dos anos 1930, percebe-se a perda da competitividade internacional do café, por introdução de competidores externos e superprodução, ocasionando a política de defesa de preços mais agressiva da história brasileira, caracterizada pela compra e queima do excedente da produção cafeeira. Assim, o IAA, que tinha como função refinanciar cultivos típicos de outras regiões, como o açúcar nordestino, terminou, na verdade, incentivando a troca da lavoura de café do estado de São Paulo pela de cana, baseado, justamente, no tamanho do mercado paulista. Como efeito, o estado de São Paulo, ainda nos anos 1940, já havia superado a produção de açúcar dos principais estados produtores nordestinos.
Aliado a isso, os benefícios fiscais e creditícios à industrialização no período também se concentraram no eixo Rio–São Paulo. Com o avanço da integração nacional, com o fim dos impostos interestaduais e o crescimento da malha viária as indústrias nascentes da região Nordeste, sem proteção tarifária ou vantagem no crédito, não conseguiram competir com suas contrapartes paulistas, muitas delas cessando de existir ou se tornando filiais das indústrias sudestinas. Nesse cenário, percebemos uma região sem uma produção primária relevante e competitiva, perdendo espaço para a produção de açúcar paulista, e sem um setor secundário de industrialização capaz de suprir as necessidades locais. Naturalmente, um boom demográfico que se seguiu, e sua equivalente urbanização acelerada, contribuíram para a criação de uma sociedade baseada em subempregos no setor de serviços e de baixa rentabilidade na produção primária. A baixíssima renda per capita do Nordeste é apenas a expressão econômica de uma região cada vez mais sufocada pela pauperização.
É importante salientar que, durante todo esse período, e posteriormente, o problema das secas do semiárido nordestino foi encarado de modo insuficiente, sendo considerado, muitas vezes, como fato natural, cabendo apenas ajudas de emergência. Desde a primeira grande seca de impacto nacional, em 1870, o caráter assistencialista tornou-se preponderante. Na Primeira República e no governo Vargas, tentou-se financiar construções voltadas ao armazenamento de água, com a construção de açudes, destacando-se a criação do DNOCS, em 1945. Contudo, essa política preventiva, deixada ao sabor dos potentados locais, que utilizavam o dinheiro das obras a bel-prazer, não encarou o problema social por trás da seca: uma população empobrecida de pequenos agricultores. Mesmo propostas inovadoras, como a do médico e geógrafo Josué de Castro, no final dos anos 1940, em sua Geografia da Fome, que tratavam do caráter social da fome e da seca, pouco fizeram em relação a uma mudança institucional capaz de combater essa mazela. Posteriormente, a ditadura militar apenas continuou essa longa tradição assistencialista e focada em reservas hídricas, já comprovadamente insuficientes para lidar com o problema. Dessa forma, o fluxo contínuo de migrantes internos juntou-se à imagem histórica do flagelado da seca.
Na verdade, é relevante destacar que existe uma relação entre os flagelados da seca e os projetos de migração do governo Vargas, em especial a Batalha pela Borracha e a Marcha para o Oeste. No primeiro caso, famílias de flagelados nordestinos eram alistadas para trabalhar nos seringais do Norte, essenciais para o abastecimento dos Aliados durante a II Guerra Mundial. Naturalmente, as condições de vida e de trabalho nos seringais eram terríveis, vitimando muitos dos trabalhadores. Somado a isso, a Marcha para o Oeste apresentou-se como forma de ocupação territorial de espaços pouco povoados, contando, como de costume, com o alistamento de populações nordestinas. Ambos os projetos iniciam uma longa tradição de estímulo à migração de nordestinos, e flagelados da seca, para o Norte e o Centro-Oeste, como veremos mais adiante.

O momento mais crítico relacionado ao processo da desigualdade brasileira ocorreu no contexto do governo JK. O Plano de Metas, garantindo um crescimento anual nas taxas de mais de 10% ao ano, agravou o profundo fosso que separava as regiões do país, em especial pelo fato de, uma vez mais, concentrar os investimentos e financiamentos na região Sudeste. Em um momento de aumento da tensão política no Nordeste, pelo movimento camponês da reforma agrária encabeçado pelas Ligas Camponesas, essa área do país foi identificada como um barril de pólvora prestes a explodir em uma tensão revolucionária. Logo, um programa de desenvolvimento econômico, por meio da expansão da renda pela industrialização, surgiu como antídoto ao radicalismo político. Essa proposta ganhou corpo com a criação da SUDENE, encabeçada por intelectuais como Celso Furtado, defensores da teoria econômica da dependência. Nessa perspectiva, a mesma desigualdade que ocorre entre os países capitalistas avançados e os subdesenvolvidos aconteceria com as regiões de um mesmo país, cabendo, então, ao Estado, como planejador econômico, o papel de reverter essa tendência de subalternidade econômica.
A importante acumulação teórica e institucional em torno da ideia de desigualdade regional foi bruscamente freada com o golpe militar de 1964. A SUDENE foi escanteada, funcionando muitas vezes apenas como autorizadora das desonerações de impostos, e seu quadro de funcionários sofreu intensa perseguiução. Por ter sido associada a políticas de esquerda, como as do governador pernambucano Miguel Arraes, o esforço de desenvolvimento industrial do Nordeste foi substituído por uma política macroeconômica pautada pela segurança e pela não intervenção. Na ditadura, ganhando grande notoriedade no governo Médici, o problema do Nordeste seria o excesso de população. Seria necessário, seguindo o lema da época, dar “terras sem homens aos homens sem terra”. Assim, a migração foi incentivada para regiões consideradas pouco povoadas, os perigosos “vazios demográficos”, no Norte e no Centro-Oeste, e para os polos industriais do Sudeste, em especial São Paulo. Nesse momento, com destaque para o Milagre Econômico, a concentração industrial alcançou seu ápice, com São Paulo concentrando quase 70% do parque industrial nacional. Isso coincide, como esperado, com o maior fluxo migratório da história brasileira, consagrando São Paulo como a maior megalópole da América Latina, com todos os problemas urbanos decorrentes desse processo.
Podemos encarar esse “planejamento não planejado” da ditadura militar como elemento de uma concepção sórdida. A região Nordeste, sem possibilidade de se autodesenvolver, teria como única alternativa a migração econômica de sua população miserável para outras regiões. Dito de outro modo, o Nordeste, como região carente de oportunidades econômicas, foi aceito como premissa pelo planejador central. A pobreza na região serviria, assim, como fator de estímulo à migração, fator esse bem-vindo. Esse processo de deslocamento favoreceu o avanço brutal da urbanização nos anos 1960 e 1970, contribuindo para os diversos problemas de um crescimento urbano descontrolado, como a favelização e a violência.
Esse breve histórico sobre a desigualdade regional brasileira mostra que a migração por oportunidades econômicas, ou por refúgio climático, e a apreensão cultural do migrante, visto como indivíduo inferior, estranho, destinado a serviços braçais de baixa remuneração, não surgiram no vazio. Nem se trataram de tendência irreversível. Pelo contrário, foram opções políticas das autoridades federais e de parte da elite local nordestina para que esse estado de coisas seguisse. Foi o descaso com problemas climáticos e sociais, a falta de planejamento e a aversão à tomada de medidas estruturantes que contribuíram para os flagelados da seca. Foi, acima de tudo, um olhar — ou um virar de olhos — que condicionou a maneira de enxergar a desigualdade regional e o próprio Nordeste. Foi, assim, uma opção política coletiva, institucional. Pensaremos como esse olhar institucional é retroalimentado, influi e é influenciado por outro olhar simbólico, cultural, em relação ao migrante nordestino, em jornais e agências estatais.
O olhar das pessoas
Existe a história da seca, enquanto fenômeno econômico e climático, como vimos na seção anterior, e existe a história da representação da seca, como ela se apresenta em textos, imagens e filmes. Ambas as histórias se misturam e, em certo sentido, são indistinguíveis. Algumas das representações dos sertanejos, como povo caboclo, fruto da miscigenação de brancos e indígenas, aparecem ainda na literatura regionalista da segunda metade do século XIX. Contudo, um dos retratos mais potentes dos sertanejos está no clássico Os Sertões, de Euclides da Cunha. Nele, os homens e mulheres que combatiam na Guerra de Canudos eram incivilizados, brutalizados por sua circunstância racial e geográfica. No decorrer das matérias, feitas para um público do Sudeste, a imagem do sertanejo vai se tornando mais complexa: pessoas fortes que, apesar do clima e da raça, superaram as expedições militares republicanas. De toda forma, já se configurava um estereótipo narrativo: pessoas miscigenadas de uma região distante e, a despeito da coragem, com baixo nível cultural.
É fundamental destacar que, no Brasil do final do século XIX e início do XX, era dominante a concepção eugenista de mundo dentre as elites intelectuais e culturais. Essa corrente do racismo científico definia que os homens eram divididos hierarquicamente entre raças, sendo o branco no topo da pirâmide e os demais na base. A essa perspectiva juntava-se também o determinismo geográfico, que, por sua vez, advogava que o meio climático-topológico determinava o desenvolvimento humano, mais uma vez estando o clima temperado no topo e o tropical na base. Nessa lente, os sertanejos seriam duplamente inferiores, por sua raça e pelo clima semiárido. Evidentemente, nessa ordem de coisas, os brasileiros sudestinos estariam mais próximos da base da pirâmide em comparação a um europeu, sendo também miscigenados e habitantes de uma zona tropical. Contudo, a ficção racial funciona como uma máquina de distinções arbitrárias. Devido à migração recente de europeus, incentivada para substituir a mão de obra escrava recém-liberta, a elite do Sul se considerava branqueada e, ao mesmo tempo, integrada à modernidade e ao progresso capitalista.
Ainda dentro da construção da imagem do retirante da seca, tivemos o momento formador criado pela segunda geração de escritores modernos, nos anos 1930. Imagem essa que, superando o aspecto racial, pensa a dimensão social da seca. Romances como O Quinze, de Rachel de Queiroz, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, contribuíram para a imagem dos flagelados. Dessa mesma geração, pensamos ainda na importância da pintura moderna, como em Candido Portinari e Di Cavalcanti. De toda forma, essa nova construção do fenômeno da seca funcionava como um misto de denúncia política e redimensionamento da questão humana. Muitos desses escritores, artistas e intelectuais eram nordestinos e, dialogando com o público leitor do Sul, ajudaram a trazer uma camada de compreensão mais profunda sobre a migração dos refugiados climáticos. Nesse contexto, o cangaço aparece como emblema do olhar social sobre o sertanejo e é, a um só tempo, uma recusa das condições sociais e climáticas e uma deturpação. Recusa, pois o cangaceiro enfrenta a fome com as armas, o retirante com os pés. Deturpação, devido ao fato de que recai no banditismo, em vez de se configurar em uma revolta política mais ampla. Lampião é, então, o herói incompleto: é o flagelado que recusa a miséria e a sujeição, mas não desafia o sistema; transforma-se em bandoleiro. Permanece, acima de tudo, exótico — um desvio do fenômeno da seca. Dessa maneira, a tomada de consciência social, a apresentação do drama coletivo dos sertanejos, termina por estabelecer-se em uma outra forma de generalização. O destino racial e climático foi substituído por um novo, o social, de classe. Essa imagem potente teve vida consideravelmente longa na produção cultural brasileira, configurando um discurso nacional-popular forte nos trabalhos dos anos 1950 e 1960, incidindo, ainda que de modo depurado, no Cinema Novo, em películas como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
Importante deixar claro que essa metáfora do refugiado climático, do retirante, influiu e, na verdade, misturou-se aos discursos do migrante por motivos econômicos, este que se tornou cada vez mais comum a partir das décadas de 1930 e 1940. O exotismo sertanejo estendeu-se a toda uma região. Porém, ao migrante interno, e ao Nordeste como um todo, também se somaram novos símbolos de leitura não necessariamente ligados à seca. Temos o Recôncavo Baiano de um Jorge Amado e a Zona da Mata, região da cana, de um Gilberto Freyre e José Lins do Rego. Todavia, essa imagem também se baseava em certo exotismo sensual, solar, e marcado por relações sociais arcaicas, estas em vias de desaparecimento — pelo menos assim se acreditava — nas outras regiões. Era o Nordeste dos coronéis, das relações interpessoais calorosas e do arcaísmo do latifúndio. O Sudeste, nesse caso, representava o Estado Novo, da reforma burocrática e impessoal, baseado na modernidade capitalista industrial. Pouco importa que, no entanto, a mesma lógica de oligopólios políticos e econômicos familiares, com forte presença no Estado e íntima ligação com a propriedade latifundiária, predominasse em ambas as regiões. O fundamental era o discurso. Como uma espécie de representação-síntese, ao mesmo tempo criadora e criatura do estereótipo do nordestino, temos o brilhantismo da música de Luiz Gonzaga. Nela, aparece ao mesmo tempo o retirante e o migrante trabalhador urbano, a sensualidade e a fome; sobretudo, é uma estética da saudade. Estética de um povo que se move para longe de casa, para fugir da seca ou à procura de novas oportunidades.
Apesar das diferentes camadas de representação do Nordeste — das quais apenas pontuamos alguns momentos-chave —, percebemos a construção de um repertório comum. Constituiu-se, assim, de maneira fragmentária, um conjunto de ideias e conceitos colocados como lentes para entender esse tipo de migração. Em certo sentido, de maneira flexível, podemos pensar na criação de um campo semântico sobre o Nordeste. As diversas chaves de leitura, tanto as claramente mais negativas, de cunho racista e determinista, quanto as mais bem-intencionadas, baseadas em uma problematização da questão social, recaem em uma forma de redução coletiva do fenômeno. Tanto o olhar preconceituoso quanto o sociológico — que, na época do eugenismo, confundiam-se — apresentam os nordestinos não como indivíduos, mas como um ajuntamento coletivo, uma massa uniforme. Não eram pessoas, no sentido estrito da palavra, mas multidão.
Esse tipo de generalização, quando aplicado ao gênero humano, geralmente tem uma função social bem específica. Pode-se dizer de uma multidão impessoal que é suja, incivilizada, faminta, maltrapilha, miserável, em todos os sentidos, inferior. Contudo, torna-se mais difícil, quase como uma contenção moral, dizer o mesmo de um indivíduo, falar enquanto se olha em seus olhos. A distância própria da coletivização arbitrária, da redução de seres individuais a uma coletividade-coisa, serve como margem de manobra para a estigmatização e o preconceito. Nesse sentido, apresentar indivíduos enquanto conceito torna-se uma estratégia de exclusão.
O que buscamos aqui é apresentar a hipótese de um olhar, uma certa forma de ler pessoas envolvidas em acontecimentos complexos, como o refúgio climático e a migração interna. Mostraremos, a seguir, um recorte específico: as fotos presentes nos fundos do Correio da Manhã e da Agência Nacional no acervo do Arquivo Nacional do Brasil. Nas fotos, divididas em categorias como nordestinos ou flagelados da seca, encontramos a interpretação do fotógrafo — no caso, anônimo —, visando mostrar os retirantes para o público do Sudeste. Esse registro, como veremos, faz-se dentro do campo conceitual tratado até agora, de um olhar sobre o Nordeste.
Impressiona, nas fotografias dos fundos, a quantidade de representações de pessoas de costas. Esse fato, aparentemente banal, guarda grande carga simbólica, pois uma pessoa de costas não tem rosto. A expressão facial, os olhos, são marcas indeléveis da identidade humana. Retirar das pessoas os rostos é, basicamente, afirmá-las enquanto coisa; sua humanidade não importa. Também revela, em certo grau, o destino, alegórico e real, do migrante: com um lar nas costas, ruma ao desconhecido. É uma operação de objetificação, mas também de redução do indivíduo à sua condição de movimento, movimento esse em direção ao trabalho ou à caridade das outras regiões.
Outra forma de retirar o rosto de uma pessoa é imergi-la em uma massa de outros rostos, outros corpos. Uma multidão, vista à distância, também não permite distinguir indivíduos. Forma-se, antes, o sentido de manada humana. O grupo de migrantes, em conjunto, indistinguíveis, parece mais animal do que humano. A animalização do nordestino não é gratuita; é fruto de uma lente já tratada: a do sertanejo como ser irracional, inculto, prestes a cair na lábia de beatos, como Antônio Conselheiro. A própria ideia de migração reitera esse aspecto, pois o migrante se movimenta como por necessidade orgânica, como as aves migratórias, como se não tivesse escolha. É interessante lembrar que, para a tradição filosófica patrística medieval, uma das coisas que separam os homens dos animais é o livre-arbítrio. O nordestino seria, então, um ser sem escolha, preso ao seu destino.

Apesar de tudo, aparecem rostos. São fotografias tiradas de frente, em que antevemos uma pessoa. Porém, mesmo assim, não são pessoas na dignidade do termo. Um traço humano muito específico é ressaltado, um que rebaixa qualquer indivíduo. São faces, olhos de súplica. Ali, não é o indivíduo que importa, mas sua fome. É a agonia da pobreza que se torna protagonista. São seres humilhados, pedintes à espera de algo.

O nordestino suplicante espera por um salvador. Quem seria? O Estado brasileiro, capitaneado pela região economicamente dinâmica do país, o Sudeste. Ao assistencialismo estatal, junta-se o da sociedade civil, que, apesar de bem-intencionado, como vimos, não resolve os problemas fundamentais por trás dos flagelados da seca ou da migração econômica. Para ser mais exato, talvez o problema não seja a ajuda humanitária em si, mas sim o discurso, a apresentação. As fotos, de 1951, mostram o ministro da Aviação da época, bem trajado de paletó branco, em meio a uma horda de famintos. Em outro vídeo, intitulado “Ajuda a nordestinos pobres no bairro da Guanabara”, os suplicantes são mostrados em fila, sempre inferiores a quem oferece a caridade. Existe algo de zoológico humano nessas representações, como se disse: olhe esses quase humanos que ajudamos, tão exóticos, tão necessitados. Por fim, trata-se de uma fórmula paternalista de lidar com o migrante, animal-criança a ser tutelado, que não consegue salvar a si mesmo.

O fluxo de migrantes econômicos, a forma de olhar esses nordestinos, amalgamou-se com as apreensões sobre os flagelados das secas, como vimos. No período da ditadura, em específico, auge desse movimento migratório, novas camadas foram sendo acrescentadas, e outras intensificadas. A animalização do nordestino ganhou nova nuance, reforçou-se a ideia de animal de carga. Os chegados da região ocupavam postos de trabalho inferiores: operários, porteiros, empregadas domésticas e, quando sem oportunidade, viviam à margem da lei nas metrópoles em contínua lotação. Nesse sentido, preconceito regional, de raça e de classe tornam-se cada vez mais unidos. As telenovelas da ditadura e o cinema fortaleceram muitos desses estereótipos. Um, em especial, é do nordestino enquanto elemento cômico, tosco e burro, presente nos núcleos temáticos das novelas, motivo de riso. O público do Sul olha, ora com curiosidade, ora com desprezo, esses novos chegados. No filme a seguir, feito pela Agência Nacional, chamado Migrantes nordestinos, vemos o repórter entrevistando trabalhadores da construção civil originários da região. Destaca-se a naturalidade das perguntas genéricas e certo desconforto dos entrevistados. Dois momentos são sintomáticos. O primeiro pergunta a um migrante vindo do Recife se já se acostumou à cidade grande – negligenciando que a capital pernambucana, naquele momento, já era uma das maiores cidades do país. Outro foi entrevistar o filho de um nordestino: seu pai vivia no Rio faz 20 anos, e o garoto tinha 18. Supõe-se, logo, que o rapaz era carioca. O entrevistador, ao perguntar o que faria se ganhasse na loteria, pareceu surpreso ao receber a resposta de que compraria uma fazenda no Mato Grosso. Retruca se não voltaria para sua terra, caso tivesse a chance. O jovem nega. Existe nesse diálogo uma visão biológica implícita, do Nordeste como fator de sangue, e não de cultura ou geografia. É um estigma, marca de origem.
O encontro dos olhares
Em termos narrativos, separamos o olhar institucional de um olhar cultural. Todavia, é difícil separá-lo, considerar que são formas distintas de ver. O não-olhar estatal, seu desinteresse e indisponibilidade, encontra-se com o olhar pessoal, caricatura e inferioridade. Não podemos responder claramente se a migração é fruto da negligência estatal ou se, ao contrário, a ausência de planejamento institucional se dá pela consideração do nordestino como ser subalterno. Muito provavelmente, são concomitantes. É desse olhar-síntese que criamos uma imagem – o nordestino.
Nesse contexto, é importante afirmar que os migrantes não são conceito, são indivíduos com emoções, memórias e biografias. Não são o outro, são nós mesmos, em diversos sentidos, um país inteiro que se retira. É fundamental afirmar que não são mera invenção, linguagem, significante. O migrante nordestino é uma circunstância econômica, política e cultural. É fruto do olhar do outro, mas também do seu próprio olhar. De condições bastante específicas, climáticas e materiais, e da forma que essas condições são compreendidas.
Interessante que o antídoto de um olhar preconceituoso e generalizador é, como consequência, a criação de um novo olhar. É, acima de tudo, em um olhar direto e honesto, daquele que mira no fundo dos olhos, que encontramos um indivíduo. Uma pessoa apenas, em sua complexidade e insignificância. Sem a carapaça do estereótipo, de uma necessidade, de um pedido de ajuda. Uma pessoa apenas que migra, como todas as outras.

Bibliografia
1. FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
2. MUNIZ DE ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011.
3. CASTRO, Josué de. Geografia da fome. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1946.
4. ABREU, Marcelo de Paiva (org.). A Ordem do Progresso: dois séculos de política econômica no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2014.
5. SCHWARCZ, Lilia Moritz (coord.). História do Brasil Nação: 1808–2010. Vol. 3: A abertura para o mundo: 1889–1930. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
______. Vol. 4: Olhando para dentro: 1930–1964. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
6. RIDENTI, Marcelo. Brasilidade revolucionária: um século de cultura e política. São Paulo: Editora Unesp, 2010.
7. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Editora Cultrix, 1970.
8. ANDRADE, Manuel Correia de Oliveira. A terra e o homem no Nordeste: contribuição ao estudo da questão agrária no Nordeste. 1. ed. São Paulo: Editôra Brasiliense, 1963
9. ANDRADE, Francisco Pedrosa de. As Letras Da Miséria: A Representação Da Pobreza No Campo Literário E Intelectual Do Recife (1958-1964). 2019.
Arquivos
Banner: BR_RJANRIO_PH_0_FOT_05695_m0028de0039 (legenda: A distribuição de nordestinos agora é feita pelo INIC. Vêm de avião com destino determinado. S.l, maio de 1958); BR_RJANRIO_PH_0_FOT_05695_m0004de0039 (legenda: Retirantes nordestinos, o problema perdura; junho de 1956), ambas do Correio da Manhâ. Trecho do documento de notação br_rjanrio_s7_0_txt_cx004_pt003, fundo Paulo de Assis Ribeiro: dossiê sobre o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA), primeiro semestre de 1943.
br_rjanrio_eh_0_fot_ppu_04956_d0002de0011: Lúcio Martins Meira, ministro da Viação, entre flagelados. S.l, 1959. Agência Nacional.
Página do documento de notação br_rjanrio_s7_0_txt_cx004_pt003, fundo Paulo de Assis Ribeiro: dossiê sobre o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA), primeiro semestre de 1943.
br_rjanrio_eh_0_fot_eve_09085_d0018de0080: Socorros aos flagelados da seca do nordeste. S.l, abril de 1951. Agência Nacional.
br_rjanrio_eh_0_fot_eve_09085_d0042de0080: idem
BR_RJANRIO_PH_0_FOT_05695_m0010de0039: Retirantes nordestinos. Correio da Manhã.
br_rjanrio_eh_0_fot_eve_09088_d0004de0005: Flagelados da seca do nordeste. S.l, julho de 1956. Agência Nacional.